Sobre MinhaVidaIntegral

'Minha Vida Integral' é uma iniciativa para divulgação da Teoria e Prática Integral, conforme apresentado pelo filósofo e pensador Ken Wilber, bem como de outras teorias e práticas correlacionadas.

A Falácia Pré/Trans

Originalmente publicado no site integrallife.com em Julho de 2013
https://integrallife.com/pre-trans-fallacy/

Além do Romantismo

Tanto O Projeto Atman (1980) quanto Éden Queda ou Ascensão (1981) representou uma nova e importante fase no trabalho de Ken – a mudança para Wilber-2, marcada por uma transição da idealização retrô-romântica do passado para uma nova visão evolucionária de crescente bondade e totalidade. Ken descreve esse período como uma das transições teóricas mais difíceis que ele já fez em toda a sua carreira, não apenas porque inicialmente parecia virar de cabeça para baixo alguns de seus trabalhos anteriores, mas também porque ia contra a visão predominante que as pessoas tinham na época sobre a história humana. Essa visão era compartilhada não apenas pelos religiosos, mas também por acadêmicos e antropólogos que muitas vezes glorificavam as culturas primitivas e as retratavam como idealizados “nobres selvagens” os quais evitavam a guerra e viviam em perfeito equilíbrio com a natureza. Em outras palavras, que nascemos em um estado iluminado, perdemos esse estado em algum lugar ao longo do caminho e então temos que trabalhar para voltar ao nosso estado original de pureza iluminada.

Mas quando Ken começou a examinar mais de perto os dados antropológicos, ele sabia que algo estava errado com essa leitura da história. Olhando para o desenvolvimento cultural e individual, ficou claro que não começamos nossas vidas em algum estado integrado, para então perdermos essa integração à medida que crescemos. Em vez disso, Ken viu que começamos nosso desenvolvimento em um estado de fusão ou absorção pré-diferenciada com o meio ambiente, incapazes de distinguir onde terminamos e onde começa o resto do mundo. Então, passamos a nos diferenciar de nosso entorno, sedimentando limites entre o eu e o outro, dentro e fora, mente e corpo, e assim por diante.

Esse estágio de diferenciação era tipicamente visto como a causa de todos os nossos pecados e sofrimentos – comemos a maçã da Árvore do conhecimento, aprendemos a discernir o bem do mal e prontamente nos banimos de um paraíso mítico. Mas de acordo com essa nova visão evolucionária, comer a maçã não era um degrau; foi um passo à frente do Éden – uma transição da fusão pré-diferenciada da mente animal para a autoconsciência diferenciada, autorreflexão e capacidade de escolha que define o espírito humano, e só então segue para um estado de genuína integração com o mundo e com a natureza – uma verdadeira Iluminação.

Como Herman Hesse escreveu certa vez: “O caminho para a inocência, para o incriado e para Deus leva, não de volta ao lobo ou à criança, mas cada vez mais para o pecado, cada vez mais fundo na vida humana”. O objetivo da iluminação não é regredir ou retroceder para retornar a algum paraíso primordial perdido, como acreditavam os retro-romanticos. Em vez disso, devemos continuar em frente através da fragmentação e discernimento, sofrendo os impactos da ultrajante manifestação, antes que possamos alcançar um estado de perfeita integração com todas as coisas.

A falácia pré/trans

Equipado com essa nova compreensão evolucionária, Ken notou uma confusão central que tornava muito difícil discernir entre os estágios inferiores e os estágios superiores. As experiências místicas transracionais eram frequentemente descartadas como sendo fantasia pré-racional, os valores pós-modernos eram erroneamente projetados em culturas pré-modernas e a impulsividade e o hedonismo pré-moderno eram celebrados pela contracultura pós-moderna. Ao invés de ver a psicologia como um processo de desenvolvimento que vai do pré-racional ao racional para o trans-racional (ou fusão pré-diferenciada para diferenciação para integração pós-diferenciada), uma pessoa era vista como racional ou não, resultando no descarte do bebê trans-racional junto com a água do banho pré-racional.

Esse equívoco entre “pré-” e “trans-” ficou conhecido como a falácia pré/trans , uma das contribuições teóricas mais populares e profundas de Ken, e que continua a nos ajudar a entender muitos dos conflitos e confusões centrais que atravessam a psicologia e a academia ocidentais.

A falácia pré/trans na verdade elucidou uma das principais falhas entre dois dos maiores fundadores da psicologia moderna, Sigmund Freud e Carl Jung, que estavam em lados opostos dessa falácia – Freud reduziria os estados espirituais a uma ressurgimento de sentimentos infantis, enquanto Jung elevaria a mitologia pré-racional à glória trans-racional. A compreensão da falácia pré/trans nos permite juntar as peças em um todo mais abrangente, liberar e integrar o insight genuíno oferecido por esses dois pioneiros e separar seu brilho dos mal-entendidos que eram crescentes, antes que essa visão desenvolvimentista finalmente surgisse.

Essa reconciliação de ideias aparentemente irreconciliáveis ​​ou incompatíveis talvez seja a característica definidora de toda a carreira e filosofia de Ken: encontrar os padrões que conectam, unir teorias aparentemente díspares, transcender e incluir as maiores mentes da história em um único modelo integrado da vida, do universo, de tudo — um modelo que continuaria a se tornar mais inclusivo, mais abrangente e mais elegante a cada passo.

Da série de biografias de Ken Wilber
escrita por Corey deVos

Respondendo de maneira eficaz às crises e à loucura de nossos tempos

Convocando todos os praticantes Integrais
Respondendo de maneira eficaz às crises e à loucura de nossos tempos
Roger Walsh | Tradução e adaptação Paulo C S Passini
Originalmente publicado em 14 de abril de 2021 no site
https://integrallife.com/calling-all-integral-practitioners/

Estamos em uma corrida entre a consciência e a catástrofe, e as catástrofes potenciais continuam se multiplicando. Turbulência social e política, guerras frias e guerras quentes, guerras culturais e guerras cibernéticas — a lista de desafios sociais é longa e crescente.

NT:  uma “guerra quente” é a guerra efetiva, que envolve conflitos militares diretos entre forças opostas.

Mas as ameaças sem precedentes à sobrevivência de nossa civilização e até mesmo de nossa espécie são cada vez maiores. As pandemias chamaram a atenção, mas são apenas um sinal de alerta. Em nossa direção está uma constelação de crises, como superpopulação, esgotamento de recursos, colapso ecológico, armas de destruição em massa e muito mais. Pior ainda, a urgência dessas crises continua aumentando e o tempo para uma ação eficaz está diminuindo. Existem muitos motivos para essa urgência, e três deles são cruciais:

As crises estão interligadas e se agravam mutuamente e, juntas, constituem o que se tem chamado de ‘as meta crises de nosso tempo’.

Ecologia, clima e sociedades — como todos os sistemas complexos — estão sujeitos a pontos de inflexão e falhas em cascata [efeito dominó].

Os pontos de inflexão são condições nas quais ocorrem mudanças repentinas, às vezes irreversíveis.

Falhas em cascata são crises nas quais uma mudança ou falha em um sistema, como a perda de uma floresta tropical de importância global, causa mudanças drásticas em um segundo sistema, digamos, no regime de chuvas do mundo todo, que causam secas, que causam a perda de florestas tropicais, que causam … bem, você já tem o cenário.

A taxa de degradação ecológica e climática está acelerando de forma mais rápida do que o previsto.

Cada nova análise parece revelar rupturas mais rápidas, e o primeiro grande relatório de 2021 alerta em seu título para os riscos de se subestimar os desafios de evitar um futuro assustador4. As respostas das pessoas a essas ameaças variam dramaticamente. A maioria continua na ignorância obstinada, consumida pela luta para sobreviver ou pelas ocupações da sociedade moderna. Alguns rejeitam raivosamente essas ameaças, julgando-as notícias alarmistas ou falsas, enquanto outros se tranquilizam com trivialidades auxiliados por brinquedos tecnológicos e o fluxo interminável de insignificância narcotizante da mídia de massa.

O poder de tais defesas psicológicas para distorcer, negar ou distrair-nos de realidades dolorosas é impressionante. Elas também são autodestrutivas, como qualquer psicoterapeuta pode atestar. Pior, agora elas também são potencialmente destrutivas para a sociedade e o planeta, à medida que as ameaças ao planeta são rejeitadas, e teorias de conspiração bizarras como QAnon — sendo francamente delirante — proliferam descontroladamente3 . Intervenções claramente eficazes precisarão abordar essas defesas psicológicas.

NT: QAnon é uma teoria da conspiração de extrema-direita, criada nos Estados Unidos, que alega haver uma cabala secreta, formada por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirige uma rede global de tráfico sexual infantil e estava conspirando contra o ex-presidente Donald Trump e os seus apoiantes, durante o seu mandato. A conspiração teria sido engendrada com base num plano secreto do denominado “Estado Profundo” (deep state). — fonte: Wikipedia

Felizmente, um número crescente de pessoas está reconhecendo nosso dilema global. Muitos estão profundamente preocupados com a possibilidade de um colapso civilizacional – uma catástrofe tão inconcebivelmente grande que ofuscaria qualquer coisa na história humana, condenaria bilhões à morte e deixaria uma minúscula população restante lutando para sobreviver6 . Os pessimistas ou “apocalípticos” perderam a esperança de que possamos evitar o desastre e estão procurando a melhor forma de sobreviver em um mundo drasticamente destruído. Alguns adotaram uma mentalidade de bunker e (literalmente) estão construindo abrigos subterrâneos e estocando armas para se proteger, e apenas a si mesmos. Outros, como o movimento de adaptação profunda, estão encorajando a adaptação pessoal e social a desastres antecipados2;9.

NT: Adaptação Profunda é um conceito e movimento social baseado na visão de que a humanidade precisa se preparar para a possibilidade de colapso social, à medida que a mudança ambiental perturba cada vez mais os sistemas sociais, econômicos e políticos. Ao contrário da adaptação às mudanças climáticas, que visa adaptar as sociedades gradualmente aos efeitos das mudanças climáticas, a Adaptação Profunda tem como premissa a aceitação de transformações abruptas iminentes do meio ambiente. O conceito foi originalmente compartilhado em um artigo lançado pela University of Cumbria em julho de 2018, do professor de liderança em sustentabilidade Jem Bendell. — fonte: Wikipedia

Mas o resultado não está predestinado e nosso destino está em nossas mãos. Por pior que sejam nossas crises, nossas respostas decidirão tanto suas consequências quanto nosso destino. Se assim for, e é, isso suscita uma das grandes questões de nosso tempo e de todos os tempos: como podemos contribuir de forma mais eficaz para ajudar a mitigar ou curar essas crises?

Como praticantes integrais, esta questão se torna premente: como podemos usar nossas habilidades integrais para contribuir de forma mais eficaz? Claro, por trás disso está outra questão: como descobrimos nossas contribuições mais eficazes?

Para responder a essas perguntas, precisamos identificar as raízes profundas, o código-fonte, de nossas crises e loucuras, e reconhecer o que essas raízes revelam sobre o que ajuda de fato. Pois, se não resolvermos as causas profundas, estaremos apenas prestando primeiros socorros, sempre aplicando um band-aid social global aos sintomas, mas não criando curas.

Este artigo sugere respostas a essas perguntas, mas não oferece uma receita única para todas. Em vez disso, ele levanta questões e oferece princípios que orientam cada um de nós a descobrir nossas próprias respostas particulares e quais são as nossas mais profundas e eficazes contribuições [possíveis].

Para fazer isso, convido você a ponderar quatro questões e dez princípios. Essas questões são perguntas, especificamente perguntas de sabedoria. Os princípios apontam para as raízes profundas de nossas crises, bem como as maneiras pelas quais podemos lidar com essas raízes para, simultaneamente, libertar o mundo e a nós mesmos delas.

Às Quatro questões-chave

1. O que eu posso fazer?

Esta é a primeira pergunta sobre a contribuição que surge naturalmente quando nos abrimos para o sofrimento que nos rodeia. Considerando minha realidade única, minhas capacidades e conexões, minha compreensão integral, o que posso fazer? Como posso ajudar? É uma bela pergunta, que nos abre para a dor do mundo e desperta o nosso cuidado e compaixão.

2. No que me sinto chamado a contribuir?

Esta é uma importante questão complementar. Ela reconhece que cada um de nós é especialmente sensível a algumas formas de sofrimento e inspirado por alguns tipos de ação. Algumas maneiras de contribuir se alinham com nossos interesses e habilidades, e é muito provável que sejamos energizados e apaixonados por ações que nos tocam e inspiram.

Alguns de nós vão se sentir impelidos a estar nas linhas de frente, a pregar nas calçadas, alimentar os famintos, ou protestar contra a poluição. Outros serão atraídos para mudar corações e mentes com arte ou música, ensinando ou escrevendo (por exemplo). Outros ainda se sentirão chamados para dentro — para meditar, contemplar ou orar — e então voltar à batalha com um coração mais aberto, uma perspectiva mais ampla, uma resposta mais sábia. Cada um de nós é chamado a escutar e a responder ao nosso chamado único.

3. Qual é a coisa mais estratégica que posso fazer?

Existe uma questão mais profunda do que “O que posso fazer?” e “O que eu gostaria de fazer?” A questão mais profunda é: “Qual é a coisa mais estratégica que posso fazer para ajudar?” Que tipo de contribuição alavancará minha ação na direção do maior impacto possível?

Esta é a arte de exercer influência no ponto mais sensível para maximizar os benefícios. “Dê-me um lugar para ficar e uma alavanca longa o suficiente”, exclamou o antigo inventor grego Arquimedes, “e eu moverei o mundo”. É isso que estamos procurando – nosso lugar para nos posicionar e alavancar o impacto de nossas contribuições para mover o mundo.

4. Como posso viver minha vida de modo a ser um ótimo instrumento de serviço?

Mais profunda ainda é essa questão de longo prazo, na verdade, para toda a vida. Agora estamos procurando, não apenas por uma única contribuição, mas por uma vida de contribuições. Isso significa não apenas reconhecer agora nossa contribuição mais estratégica, mas também explorar como cultivar nossas capacidades para ver com mais clareza, nos relacionar com mais sensibilidade e agir com mais eficácia ao longo de toda a vida.

Que tipo de perguntas são essas?

Para responder a essas quatro perguntas de maneira mais eficaz, precisamos reconhecer que tipo de perguntas são essas. Pois, existem dois tipos muito diferentes de perguntas — perguntas de conhecimento e perguntas de sabedoria — e elas oferecem tipos muito diferentes de respostas.

As perguntas de conhecimento têm uma resposta única. Está chovendo lá fora? Olhe pela janela e você terá sua resposta. Fim da pergunta!

Mas as questões de sabedoria são mais parecidas com os koans zen. Cada vez que você faz esse tipo de pergunta, elas têm o potencial de conduzi-lo a um nível mais profundo da questão, a um nível mais profundo em você mesmo e também na vida. As respostas continuam mudando e se aprofundando conforme as circunstâncias mudam e nós nos aprofundamos, e não há fim para o potencial de transformação e aprofundamento. Esperançosamente, adotaremos essa prática pelo resto de nossas vidas. E, à medida que as respostas se aprofundarem, elas revelarão sucessivamente níveis mais profundos e ricos de compreensão (sabedoria sóphica [insight e compreensão]), bem como formas mais eficazes de responder (sabedoria prática). Em suma, elas aprofundam a sabedoria.

O que levanta a questão: “o que é sabedoria?” Essa é uma questão crucial porque não apenas estamos em uma corrida entre a consciência e a catástrofe; também estamos em uma corrida entre o discernimento e a catástrofe.

Sabedoria é uma compreensão profunda e matizada de si mesmo e das questões existenciais centrais da vida, além da habilidade prática em responder com eficácia e altruísmo.

Há muito nessa definição e eu a descompactei em artigos anteriores14;16 . Aqui, precisamos apenas apontar alguns conceitos-chave. Em primeiro lugar, a definição inclui os dois componentes clássicos da sabedoria: sophia (insight e compreensão) e praxis (habilidade prática). Em segundo lugar, “as questões existenciais centrais da vida” dizem respeito às principais questões e desafios que todos nós enfrentamos como seres humanos, como encontrar significado e propósito, navegar pelos relacionamentos, dar e receber cuidado e apoio e enfrentar o sofrimento e a morte. Uma das questões existenciais centrais da vida é agora a melhor forma de responder às ameaças à nossa civilização e ao planeta. Às quatro perguntas de sabedoria acima nos convidam a considerar nossas contribuições à luz dessas ameaças.

O que precisamos saber para contribuir de forma eficaz?

Existem certos princípios que são muito úteis para contribuir de maneira eficaz. Os dez princípios a seguir fornecem um contexto geral para a compreensão de nossos dilemas atuais, desenterrando suas raízes e revelando respostas profundas e eficazes.

Princípio nº 1: todas as civilizações enfrentam ameaças recorrentes e exigem respostas criativas.

Sim, COVID, armas nucleares, superpopulação global e colapso ecológico são crises únicas em nossos tempos. No entanto, são novas variações de uma história recorrente.

Civilizações são sistemas complexos que exigem enorme energia e engenhosidade para serem criados e mantidos. A entropia é incessante e a atração à decadência e desintegração é implacável. Novas ameaças continuam surgindo, de modo que superá-las e preservar a civilização exigem engenhosidade e inovação constantes.

O historiador Arnold Toynbee identificou isso como o ciclo recorrente do “desafio e resposta”. Cada novo desafio deve ser enfrentado por uma nova resposta de uma “minoria criativa”. Este é o pequeno grupo de pessoas que primeiro reconhece uma nova ameaça, inova soluções e, em seguida, inspira a maioria convencional a reconhecer a ameaça e adotar as soluções. Respostas criativas eficazes, portanto, requerem um processo triplo de reconhecimento, inovação e inspiração.

Inspirar a maioria adormecida a enfrentar a realidade e responder apropriadamente pode ser extremamente difícil, como demonstrado pela história e as respostas indiferentes às nossas atuais crises globais. As razões para essa inércia em massa são muitas e, como os princípios subsequentes demonstram, vão muito mais fundo do que normalmente se reconhece.

Princípio nº 2: as pessoas tendem a regredir sob ameaças, mas podem ser incentivadas a progredir e contribuir.

Se estivermos incentivando as pessoas a reconhecer as principais ameaças a si mesmas, à nossa sociedade e à nossa civilização, é melhor sabermos como as pessoas geralmente respondem às ameaças. Infelizmente, muitas vezes elas regridem psicologicamente e voltam a formas menos maduras e mais restritas de pensar e agir. Assim, elas podem se tornar mais egocêntricas e defensivas, contrair-se numa visão estreita e adotar um pensamento extremista de curto prazo.

Isso é muito útil para fugir de um leão. No entanto, não é tão útil para responder a problemas globais complexos de longo prazo que exigem que consideremos todas as pessoas e as gerações futuras. Essa é a má notícia.

A boa notícia é que, com o apoio adequado, as pessoas podem progredir em vez de regredir. E qual é o modo de apoiar mais adequadamente? Esse modo oferece três elementos: um contexto, um propósito e uma forma.

Um contexto é uma estrutura mental, uma maneira de compreender e dar sentido a uma situação. Existem vários contextos possíveis, mas os mais úteis fazem três coisas: tornar o desafio compreensível, mostrar às pessoas como elas podem dominá-lo e inspirá-las a fazer isso.

O primeiro princípio descrito acima fornece um tal contexto e forma de compreensão: “Sim, o esgotamento de recursos (ou perturbação ecológica, ou mudança climática, ou …) é uma grande ameaça. Felizmente, a história oferece alguma orientação. Sabemos que todas as civilizações enfrentam ameaças, e o que elas exigem de nós é que encontremos soluções criativas e inspiremos as pessoas a adotá-las”. Esse é um contexto valioso porque dá sentido à situação, aponta para uma solução e fornece um propósito.

Aqui está outro exemplo de contexto útil: “Sim, criamos uma situação perigosa e não nos preparamos para isso. No entanto, se um número suficiente de pessoas se comprometer a resolvê-lo e aprender com ele, podemos reverter a situação e também sair dessa situação mais sábios e mais bem preparados para evitar crises futuras.” Olhando dessa forma, reformulamos o desafio e o transformamos em uma oportunidade e propósito.

Reenquadrar é uma habilidade extremamente valiosa. Consiste em oferecer perspectivas úteis ou reinterpretações e é talvez a mais rápida de todas as intervenções psicológicas. Resolver medos e defesas pode levar meses ou mais. Crescer e tornar-se mais maduro pode levar anos. Mas o reenquadramento pode ser instantâneo. É claro que a ressignificação habilidosa é uma arte, mas você pode ver seu valor ao dar sentido às nossas crises contemporâneas e inspirar respostas úteis.

A terceira coisa que as pessoas precisam são os meios: maneiras de implementar seu propósito. Isso é crucial porque a pesquisa mostra que, se as pessoas virem uma maneira fácil de ajudar, elas o farão. Mas se elas não conseguem ver uma maneira de ajudar, elas podem ficar na defensiva e, em seguida, desonrar os necessitados.

Colaboradores criativos encontrarão seu próprio caminho. Algumas pessoas podem se beneficiar de sugestões e incentivos, como: “Aqui estão algumas maneiras pelas quais todos nós podemos ajudar. Quais são atraentes para você? “

Princípio nº 3: nosso estado mental costumeiro é disfuncional e delirante.

Frequentemente presumimos que, embora nossas mentes tenham seus problemas, elas basicamente funcionam da melhor maneira possível. Sim, elas (e, nós) têm falhas — peculiaridades, desejos, compulsões e muito mais — mas, ei, é assim que elas são e, como nós somos, e o que é possível ser.

Mas suponha que nossas mentes não tenham que ser assim. E se elas e nós estivermos realmente funcionando com muito menos eficácia do que reconhecemos, e de forma menos eficaz do que possível? E se muito do nosso sofrimento — tanto individual quanto coletivo — pudesse ser atribuído aos nossos estados mentais: crenças falsas, código-fonte problemático e desenvolvimento interrompido? Então, talvez nossas mentes pudessem ser curadas e cultivadas para se tornarem muito mais maduras e funcionais, para assim aliviar muito do nosso sofrimento e o do mundo.

Essas são exatamente as reivindicações centrais das tradições contemplativas do mundo: as disciplinas de treinamento da mente no centro das religiões do mundo, como a contemplação cristã, a meditação budista ou a ioga taoísta. Essas tradições se baseiam em séculos de profunda exploração da mente — tanto seus problemas quanto seus potenciais — e fornecem percepções profundas de nossa natureza humana, a fonte de nossas crises e as abordagens para aliviá-las.

O que essas tradições contemplativas nos dizem? Uma maneira convincente de resumir seus insights é compartilhar os principais ensinamentos de Buda. Este é o homem que se dedicou a uma busca implacável para entender a vida, a causa e a cura do sofrimento até que, após seis intensos anos de profunda investigação, ele finalmente alcançou um extraordinário entendimento sobre a mente, a vida e o sofrimento, que suas percepções mudaram o curso da história da vida humana.

O que ele viu foi que nosso estado de espírito normal é disfuncional. Na verdade, está iludido e fora de controle – compelido por desejos, hipnotizado por pensamentos errantes e perdido em fantasias sem fim. Em suma, estamos apenas meio acordados e meio crescidos.

Pior, até que exploremos sistematicamente nossas mentes, nem mesmo reconhecemos o quão comprometidas elas estão, ou o quão mais saudáveis ​​e felizes podemos nos tornar. Também não reconhecemos quanto sofrimento — tanto o nosso quanto o do mundo — vem de nossas mentes descontroladas. Em suma, o Buda reconheceu que as mentes não treinadas são descontroladas e iludidas, e que esta é a fonte não reconhecida de grande parte do sofrimento do mundo. É aí que reside a fonte central de nosso sofrimento, mas também sua solução. A chave para a origem e a solução de nossas crises está em nós.

Princípio nº 4: nós podemos Despertar e Crescer

Se os contemplativos tivessem apenas diagnosticado nosso problema, eles simplesmente nos teriam deixado deprimidos. Felizmente, eles também encontraram uma solução — um tratamento para nossas mentes agitadas. Pois, nossas mentes podem ser treinadas, cultivadas, curadas e aprimoradas. A percepção pode ser esclarecida, as emoções transformadas, o medo pode ceder ao amor e o egocentrismo à generosidade. Não é necessariamente fácil e leva tempo. No entanto, despertar e crescer é uma das coisas mais valiosas e belas que se pode fazer na vida humana.

Cada tradição contemplativa tem sua própria maneira de fazer isso através de sua própria constelação única de práticas. No entanto, todas elas contêm pelo menos seis práticas principais12:

  • Ética: como viver para honrar e proteger a nós mesmos e aos outros;
  • Treinamento de atenção: aprender como estabilizar e acalmar a mente;
  • Refinar a motivação: enfraquecer as compulsões e desejos egocêntricos, enquanto se cultiva vocações que transcendem o ego, tais como a auto-realização, a auto-transcendência e o serviço altruísta;
  • Transformação emocional: reduzir emoções destrutivas dolorosas, como ódio e o ciúme, enquanto se fortalece emoções benéficas e prazerosas, como amor e alegria;
  • Sabedoria: ver claramente como as coisas são e como responder com habilidade;
  • Serviço: trabalhar para apoiar o bem-estar e o despertar de todos, inclusive de si mesmo.

Princípio nº 5: outros também estão iludidos – mas nós podemos ajudar.

Um momento de reflexão traz outro reconhecimento de vida potencialmente transformador: não estamos sozinhos nesse estado de delusão e alienação. Vivemos em um transe coletivo proporcionado pelo maior CULTO (ritual) de todos: a CULTURA. Esta é a condição humana usual. Isso é o que chamamos normalidade, e essa é a fonte de tantos sofrimentos e crises.

Se isso for verdade, o que fazer? Obviamente, qualquer resposta verdadeiramente eficaz, qualquer cura real, precisa incluir um despertar desse transe coletivo. É aqui que uma investigação verdadeiramente radical das raízes de nossas crises sociais e globais nos leva. Ao reconhecimento de que essas crises têm raízes em nossa própria psique, que nossa psique é muito mais distorcida e iludida do que normalmente reconhecemos e que a cura de nossas crises externas exige também a cura interna.

Esta é uma percepção profundamente transformadora. Pois, quando realmente nos deixamos ser tocados pelo quão profundamente nosso mundo está em transe, e o quanto de sofrimento há por causa disso, naturalmente sentimos compaixão e nos engajamos no serviço, para curar tanto o transe quanto as crises.

Princípio # 6: curar o mundo exige que nos curemos.

Só podemos ajudar a curar o transe coletivo enquanto despertamos de nosso próprio transe individual. Portanto, um passo inicial essencial é trabalhar para curar e despertar nossas próprias mentes para podermos curar e despertar outras mentes com mais eficácia. E com esse reconhecimento, redescobrimos para nós mesmos um dos mais elevados e abrangentes ideais da humanidade: a aspiração budista do Bodhisattva.

Um Bodhisattva é um “ser iluminador”, alguém dedicado a curar e despertar a si mesmo e aos outros. A aspiração do Bodhisattva é o desejo de despertar e curar-nos o mais plenamente possível, de modo a ajudar a despertar e a curar os outros tão pletamente quanto possível. Esta, dizem os contemplativos em geral e os budistas em particular, é a maneira mais eficaz de ajudar, curar mais profundamente e curar mais radicalmente.

Existem quatro níveis de serviço [trabalho]: um emprego, uma carreira, uma vocação (trabalho orientado por uma diretriz interna) e uma missão (uma vocação com um objetivo transpessoal que se estende além de nosso próprio bem-estar individual). Aqueles que se abrem com compaixão à extensão do sofrimento do mundo são chamados a se tornarem instrumentos eficazes de serviço; aqueles que reconhecem as raízes profundas deste sofrimento têm como missão tornar-se Bodhisattvas.

Este não é o momento de pensar pequeno. Nossa sociedade está em turbulência, nosso planeta saqueado, nossa civilização em risco. Por que desejaríamos fazer nada menos do que curar as raízes mais profundas de nossas múltiplas crises? E se isso exige se tornar um Bodhisattva, que seja!

A princípio, a aspiração do Bodhisattva é simplesmente uma aspiração, uma esperança, uma boa ideia. No entanto, eventualmente torna-se um reconhecimento de que isso é o que desejamos mais profundamente, visto que apenas uma aspiração tão abrangente, compassiva e profunda como essa é suficiente para fazer justiça a quem realmente somos, a quem os outros realmente são e à urgência de nossa situação.

Atualizando a Aspiração Bodhisattva

Como praticantes integrais, queremos atualizar e expandir a aspiração do Bodhisattva. Além de curar e despertar a nós mesmos e aos outros, também queremos aspirar a crescer. Ou seja, buscamos amadurecer e ajudar os outros a amadurecer, tanto nos estágios convencionais quanto nos pós-convencionais do desenvolvimento psicológico adulto, recentemente descoberto por psicólogos ocidentais17. Essa categoria de crescimento psicológico é crucial, pois cada estágio subsequente oferece uma maneira mais rica, sábia e eficaz de compreender e responder à vida e seus desafios.

Crescer é mais importante do que nunca porque a crescente complexidade da sociedade contemporânea está colocando demandas cada vez maiores dos cidadãos por formas mais sofisticadas de pensar e responder. Felizmente, cada estágio subsequente do desenvolvimento psicológico adulto oferece exatamente isto: uma maneira mais sábia, mais sofisticada e mais eficaz de compreender e responder a esses desafios.

No entanto, há um problema. Tragicamente e perigosamente, a maioria das pessoas funciona muito abaixo de seu potencial de desenvolvimento. Apenas cerca de metade da população nas sociedades ocidentais atinge o desenvolvimento convencional completo, enquanto apenas cerca de 20% vai além do convencional para estágios pós-convencionais5. Não é à toa que o psicólogo do desenvolvimento Robert Kegan escreveu um livro intitulado In Over Our Heads8. Promover o amadurecimento individual e coletivo é um dos grandes desafios e oportunidades do nosso tempo e, doravante, precisa ser central para a aspiração do Bodhisattva.

Claramente, o redesenho dos sistemas educacionais para promover a maturidade e ajudar os alunos a ganhar a vida é uma prioridade urgente. Isso pode parecer uma esperança perdida, dados os sistemas educacionais atuais11. No entanto, há um exemplo poderoso no movimento escandinavo de educação bildung (autodesenvolvimento) de grande sucesso, que ajudou a transformar os países escandinavos em algumas das sociedades mais felizes e prósperas de hoje1.

Por enquanto, temos muito poucas pesquisas sobre como promover a maturidade. No entanto, as práticas eficazes provavelmente incluem encontrar professores e amigos maduros, estudar textos profundos, passar algum tempo em solitude e em contato com a natureza, bem como reflexão, meditação e outras práticas contemplativas.

Princípio nº 7: respostas eficazes tratam tanto os sintomas quanto as causas.

Se quisermos responder com eficácia às muitas crises que se precipitam sobre nós, precisaremos tratar tanto os sintomas quanto suas causas. Na verdade, precisaremos tratar o máximo possível de sintomas e causas, porque estamos lidando com sistemas e problemas complexos. No famoso romance utópico de Aldous Huxley, A Ilha, um visitante pergunta: “Por onde você começar?” Ao que os habitantes da ilha respondem: “Começamos em todos os lugares, ao mesmo tempo”.

Sim, precisamos aliviar a pobreza e a injustiça, a poluição e a violência. No entanto, também precisamos abordar simultaneamente as causas sistêmicas externas e também as causas internas, muitas vezes esquecidas — as patologias psicológicas individuais e culturais coletivas que continuam criando crises externas. Em suma, precisamos de respostas integrais. Do contrário, estaremos apenas aplicando band-aids, e as causas internas permanecerão intocadas e os problemas se repetirão indefinidamente, assim como ao longo da história.

O objetivo é promover indivíduos mais saudáveis ​​e maduros, bem como sociedades mais saudáveis ​​e maduras para apoiá-los. Idealmente, essas serão sociedades meta modernas que têm como principais objetivos a melhoria da saúde psicológica e maturidade de seus cidadãos7.

Princípio # 8: A Aspiração do Bodhisattva é uma Inspiração, não um Destino

Curar e despertar a nós mesmos, quanto mais o mundo, não é um projeto menor. Então, vamos reconhecer que a aspiração do Bodhisattva é um ideal, e os ideais podem ser usados com ou sem habilidade.

Usados sem habilidade, os ideais tornam-se metas que devem ser alcançadas e concluídas. Mas aqui está um segredo: ideais profundos são raramente concluídos. Sempre haverá algum sofrimento no mundo e alguma tolice em nós mesmos — essa é a natureza de nossas vidas humanas e condição samsárica. Se pensarmos que devemos atingir algum estado de perfeição, simplesmente criaremos mais sofrimento.

Usados com habilidade, os ideais são como ponteiros ou bússolas. Eles nos lembram: “Ah! Sim, essa é a direção que quero que minha vida siga.” Então, o ideal se torna uma inspiração contínua em vez de um destino ilusório e garantia de frustração.

Princípio # 9: A Arte do Serviço Sagrado: Curando e Despertando o Mundo e a Nós Mesmos Simultaneamente.

Quando examinamos nossos desafios sociais e globais de perto, vemos que respostas eficazes requerem compreensões e respostas mais profundas do que as que são normalmente reconhecidas. Torna-se claro que precisamos abordar os problemas e suas muitas causas, incluindo as causas em nós. Para fazer isso, precisamos trabalhar para desipnotizar e despertar a nós mesmos, para aprender e crescer, e para desenvolver nossas habilidades ativistas.

Isso é muito! Mas será que ao menos fá uma maneira de fazer todas essas coisas simultaneamente. Felizmente, existe: uma prática milenar de serviço sagrado que combina aprendizado, despertar e ativismo em um todo integrado.

Esta é a antiga prática indiana de karma ioga, a ioga que usa o trabalho e o serviço de uma pessoa no mundo para aprender e despertar. É uma forma de pegar qualquer atividade e transformá-la em oportunidade de aprendizado e despertar. Envolve oito etapas, que podem ser realizadas durante a atividade [ação, trabalho], e quase não requerem tempo extra, apenas conscientização extra13;15.

O serviço sagrado tem muitos benefícios. Ele apoia continuamente o aprendizado e a cura, o desapego e a generosidade, o serviço eficaz e muito mais. Seus benefícios fluem de cada uma das seguintes oito etapas:

1. Pare antes de iniciar qualquer atividade importante. Dê a si mesmo o presente de um momento para parar, tornar-se presente e refletir sobre o que você está prestes a fazer e por quê. O porquê de qualquer atividade é crucial pois expressa e reforça a intenção subjacente à atividade, e as intenções são formadoras de vida. De nossas intenções fluem nossas ações e reações, a direção e o destino de nossas vidas, bem como o significado e o propósito que lhes damos.

2. Ofereça a atividade e seu resultado a uma fonte ou propósito superior. Tradicionalmente, a atividade era oferecida a Deus. Se isso funcionar para você, ótimo. Caso contrário, considere oferecê-lo para algum propósito mais elevado, como “Para o bem-estar de todos aqueles que forem tocados por esta atividade”. O mais importante é que a oferta [de serviço] seja para uma fonte transpessoal ou propósito maior do que o ego de uma pessoa, de modo que apoie a transcendência do ego em vez do egocentrismo.

3. Tente fazer a atividade de forma impecável. Faça a atividade da melhor maneira que puder. Isso fortalece capacidades como esforço, comprometimento e força de vontade.

4. Esteja atento. Traga o máximo de consciência que puder para todos os aspectos da atividade – seu comportamento, seus sentimentos, as reações de outras pessoas e o resultado. Então, cada momento se torna uma oportunidade de aprendizado.

5. Explore e trabalhe com quaisquer reações que surgirem. Inevitavelmente, experimentamos um fluxo de reações internas à medida que prosseguimos. Pode haver reações a outras pessoas, como frustração e aborrecimento, respostas emocionais como ansiedade ou esperança, bem como reações egóicas, como orgulho ou constrangimento.

Essas emoções e reações dolorosas são sinais de feedback que apontam para nossos apegos, especialmente os apegos ao resultado. Por exemplo, tememos não obter o resultado a que estamos apegados, ficamos com raiva das pessoas que se interpõem em nosso caminho, ficamos envergonhados se não estivermos com uma boa aparência ou nos sentimos deprimidos se perdemos as esperanças. Todas essas emoções dolorosas são oportunidades de cura e crescimento se trouxermos consciência a elas, aprendermos com elas e as liberarmos.

6. Libere o apego ao resultado. É esta etapa que elimina o egocentrismo e torna o karma yoga uma prática tão profunda. Normalmente, se estamos fazendo algo que vale a pena, especialmente algo tão importante como preservar nosso planeta, naturalmente nos apegamos às coisas que funcionam da maneira que pensamos que deveriam. No entanto, essa é uma receita para o sofrimento, e todos nós provavelmente já conhecemos muitos ativistas esgotados.

Pessoas de bom coração também se preocupam com que, se deixarem de lado o apego ao resultado, não serão mais idealistas e motivados para servir. Mas isso se baseia em uma dolorosa subestimação de nós mesmos. Assume que não podemos confiar em nós mesmos para fazer o que é certo e que só o faremos se estivermos apegados e viciados.

Felizmente, isso está simplesmente errado. Quando deixamos de lado nossos apegos ao modo como as coisas acontecem, tornamo-nos menos reativos, menos egocêntricos, menos presos às nossas emoções e, mais capazes de ver com clareza e agir com habilidade. Em suma, tornamo-nos mais sábios e mais eficazes.

7. Refletir: Após concluir a atividade, reflita e aprenda. O que você pode aprender com esta atividade – sobre você, os outros, a mente e sobre como ser mais eficaz?

8. Oferecer os benefícios da atividade para o bem-estar e despertar de todos. Esta etapa final paradoxal é baseada em uma compreensão profunda da maneira como a mente funciona. Especificamente, o que pretendemos para os outros, tendemos a vivenciar e fortalecer em nós mesmos. Portanto, quando você termina pensando: “Que os benefícios desta atividade sirvam ao bem-estar e ao despertar de todos”, você está pretendendo o maior bem para o maior número, e sua mente ecoa naturalmente essa intenção, preenchendo-se com sentimentos expansivos de generosidade e cordialidade. O serviço sagrado permite que nos tornemos benfeitores e beneficiários de todos.

Princípio # 10: O serviço nos atende até que o universo atenda a si mesmo.

Nossa cultura pensa no serviço como um auto-sacrifício. No entanto, a sabedoria vê o serviço como um auto-interesse esclarecido. Pois, o serviço produz vários benefícios, começando com um imediato “barato” do ajudante — é bom ajudar os outros — e continuando com benefícios à saúde de longo prazo.

O serviço sagrado desnuda o egoísmo e o egocentrismo, nutre virtudes como a bondade e a compaixão e, gradualmente, revela nossa Verdadeira Natureza. Esta é uma descoberta surpreendente, que passamos toda a nossa vida sofrendo de um caso de identidade equivocada. Não somos apenas mais do que pensamos; somos mais do que ousamos pensar e mais do que podemos pensar. Este é o segredo central da vida para o qual as tradições contemplativas do mundo apontam.

Quando esse Eu mais profundo e verdadeiro é vislumbrado, tanto em nós quanto nos outros, muitas mudanças ocorrem. Por ver sua magnificência, o que mais gostaríamos de fazer senão ajudar a despertar a nós mesmos e aos outros para essa Realidade? O que mais seria uma expressão digna de quem somos ou uma oferta digna para quem os outros realmente são? E dada a extensão do sofrimento desnecessário no mundo, o que poderia ser mais apropriado ou satisfatório do que nos dedicarmos a aliviar esse sofrimento?

De repente, a aspiração do Bodhisattva faz todo o sentido. Isso é simplesmente o que se aspira quando se reconhece quem nós e os outros realmente somos, e quanto do sofrimento do mundo decorre de não reconhecermos isso. Que simples, que natural, que lindo! Nesse estágio, a aspiração do Bodhisattva se torna uma expressão natural e espontânea, uma resposta natural ao que o mundo profundamente precisa. Ame os “outros” como a si mesmo porque eles são você mesmo.

Ao fazer o serviço sagrado, nos aprofundamos mais em nós mesmos para irmos mais efetivamente para o mundo, e vamos para o mundo para nos aprofundarmos mais em nós mesmos. Continuamos este ciclo de aprendizado, despertando e servindo até que isso se torne uma expressão espontânea de nossa Verdadeira Natureza, e então o universo aprende, desperta e atende [serve] a si mesmo através de nós.

Nota: Partes deste artigo baseiam-se em uma palestra proferida na Conferência Europeia Integral de 2020 e em um artigo anterior, Contribuindo Efetivamente em Tempos de Crise, atualizado, ampliado e referenciado em uma estrutura Integral.

Referências

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Sobre Roger Walsh: Roger Walsh, MD, Ph.D., passou quase um quarto de século pesquisando e praticando as grandes tradições espirituais do mundo. Seu livro aclamado pela crítica, Essential Spirituality (Espiritualidade Essencial), é um resumo dessa sabedoria, delineando as sete práticas espirituais comuns às principais religiões do mundo.

O significado de 2ª pessoa

Tradução e adaptação: Paulo C S Passini | Revisão: Jorge Watanabe
https://integrallife.com/meaning-2nd-person/

Tem havido, por algum tempo, um mal-entendido considerável sobre como a Estrutura Integral AQAL vê a 2ª pessoa (por exemplo, “tu”, “você”). Eu não tenho ajudado nessa questão, porque embora já tenha explicado esse ponto, que é um tanto técnico, ocasionalmente eu mesmo utilizei  uma forma introdutória mais fácil e simples – mas tecnicamente não muito certa –  para descrever esse ponto. E ainda houve outra apresentação na Conferência de Teoria Integral deste ano que seguiu o mesmo mal-entendido (acompanhado de algumas outras imprecisões graves), pelo menos a meu ver, então pensei que já seria hora de abordar esse tema de forma completa.

A confusão origina-se exatamente no significado de “2ª pessoa” – porque existem dois significados muito diferentes que são constantemente confundidos. Há também uma grande confusão sobre o que precisa acontecer para um “você” realmente se tornar um verdadeiro “você”. A AQAL sem dúvida permite que todos esses significados sejam claramente diferenciados – mas é exatamente essa falta de diferenciação que causa os mal-entendidos (um mal-entendido que continua ocorrendo com praticamente todos os críticos da AQAL, com relação a este ponto).

Começarei abordando o primeiro significado dos pronomes de “1ª”, “2ª”, e “3ª” pessoa. Uma crítica ocasional da AQAL é que, ao enfatizar a perspectiva “nós” (que é a 1ª pessoa do plural e o Quadrante Inferior Esquerdo), a AQAL na verdade deixa de fora a perspectiva “tu” ou “você” de 2ª pessoa. Isso definitivamente não é verdadeiro, mas de maneiras que raramente são compreendidas. Para começar, temos o primeiro significado desses pronomes (perspectivas de “1ª,” “2ª,” e “3ª” pessoa). Este primeiro significado é tecnicamente correto, a saber: 1ª pessoa é a pessoa que fala (caso reto: “eu”; caso oblíquo: “me”, “mim”, “comigo”; possessivo singular: “meu” ou “minha”; plural: “nós”; possessivo plural: “nosso” ou “nossa”); 2ª pessoa é a pessoa com quem se fala (caso reto singular: “tu” ou “você”; caso oblíquo: “te”, “ti”, “contigo”; plural: “vós” [ou vocês]; possessivo singular: “teu” ou “tua”; possessivo plural: “teus” ou “tuas”); e a 3ª pessoa é a pessoa ou coisa de que se fala (caso reto: “ele” ou “ela”; caso oblíquo: “se”, “si”, “consigo”, “o”, “a”, “lhe”; plural: “eles” ou “elas”; possessivo singular: “seu” ou “sua”; possessivo plural: “seus” ou “suas”; caso reto e oblíquo no singular: “ele”, “ela”, “isto”; caso reto e oblíquo no plural: “eles”, “elas”, “istos”; possessivo no singular: “seu”, “sua”; possessivo no plural: “seus”, “suas”). Uma versão abreviada disso, como veremos, é simplesmente eu, nós, e isto.

Agora, o fato importante – e quase sempre esquecido – sobre essas definições desses pronomes é que eles não dizem absolutamente nada sobre o efetivo desenvolvimento interior. E o desenvolvimento interior é frequentemente descrito em pronomes semelhantes, mas que têm significados muito diferentes. Loevinger e Cook-Greuter (eu concordo com os dois e eu), por exemplo, descrevem os níveis de desenvolvimento em termos de sua capacidade de assumir perspectivas cada vez mais complexas. Portanto, a altitude vermelha pode assumir uma perspectiva de 1ª pessoa; a âmbar pode assumir uma perspectiva de 2ª pessoa; a laranja pode assumir uma perspectiva de 3ª pessoa; a verde pode assumir uma perspectiva de 4ª pessoa; a verde-azulada pode assumir uma perspectiva de 5ª pessoa; a turquesa pode assumir uma perspectiva de 6ª pessoa e assim por diante. Aqui, “1ª pessoa”, “2ª pessoa” e “3ª pessoa” têm significados bastante diferentes da primeira definição (e aqui, “4ª,” 5ª, “6ª”, etc. nem mesmo se enquadram na primeira definição). Neste uso, por exemplo, “3ª pessoa” significa não a pessoa sobre a qual se fala, mas a capacidade de assumir o ponto de vista de uma pessoa sob a perspectiva de outra – os pontos de vista de três pessoas podem ser mantidos simultaneamente em mente. A primeira definição de “3ª pessoa”, significa simplesmente a pessoa sobre a qual se fala – e essa pessoa poderia estar num nível de desenvolvimento de 1ª pessoa, ou de 2ª pessoa, ou num nível de 3ª pessoa, ou de 4ª pessoa, ou 5ª pessoa, 6ª pessoa e assim por diante. (Quando as pessoas simplesmente falam de uma metodologia de “3ª pessoa”, elas ignoram completamente o nível da pessoa que adota essa metodologia de “3ª pessoa” – com isso refiro-me, por exemplo, à metodologia de 3ª pessoa de alguém que está [no nível] vermelho, e que não pode nem mesmo assumir o papel do outro [na verdade, ela só pode ter uma perspectiva de 1ª pessoa. Portanto, essa pessoa pode afirmar que utiliza  uma metodologia de “3ª pessoa” quando de fato só pode adotar uma perspectiva de “1ª pessoa”]? Claramente não, mas tudo isso perde o sentido por não se perceber [e diferenciar] as realidades de ambas as definições – o que a AQAL faz totalmente.)

A primeira definição é apenas um tipo de definição “topográfica”, por assim dizer – simplesmente descreve a “localização” das pessoas que falam – sejam elas a pessoa que está falando ou a pessoa com quem se fala, ou a pessoa (ou coisa) sobre a qual se fala. Isso não diz nada sobre o interior dessas pessoas ou seus níveis de desenvolvimento. Quando alguém diz apenas,, arrogantemente: “Usaremos uma metodologia de 2ª pessoa”, geralmente supomos que querem dizer que os indivíduos que usam essa metodologia estão realmente nos níveis mais altos ou elevados de desenvolvimento interior (certamente não seria possível descobrir bons resultados se aqueles que utilizam metodologias de “2ª pessoa” estiverem apenas num nível âmbar de desenvolvimento de 2ª pessoa. Mas com uma metodologia de 2ª pessoa em que os indivíduos que a utilizam estão num nível de desenvolvimento de 5ª ou 6ª pessoa ou superior isso é possível. Muito será perdido se não mantivermos essas duas definições em mente). 

Além disso, muitas pessoas que usam os termos “metodologias de 1ª, 2ª e 3ª pessoa” não têm conhecimento de estudos sobre desenvolvimento e, portanto, nem mesmo percebem que cada uma dessas metodologias poderia ser usada por pessoas em um 3º, 4º, 5º, 6º, 7º, etc. nível de desenvolvimento – com resultados drasticamente diferentes. A AQAL cobre totalmente isso, fazendo com que os indivíduos que usam várias metodologias relatem sua própria altitude de desenvolvimento – por exemplo, “Estou usando uma metodologia de terceira pessoa a partir de um nível de 6ª pessoa” (cobrindo assim ambos os significados). Nesses casos, a AQAL está lidando com questões muito mais importantes do que seus críticos apontam.

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