Compreendendo as “Guerras Culturais”

Níveis, ondas ou estágios de estrutura de desenvolvimento se aplicam a todas as atividades e temas humanos. Pegue as famosas “Guerras Culturais”, por exemplo, que é um assunto cuidadosamente superaquecido sobre qual sistema de valores é o único sistema verdadeiro. Em geral, há um consenso de que há três concorrentes principais nessas Guerras Culturais: os crentes religiosos tradicionais, muitas vezes fundamentalistas, mítico-literais, defensores da verdade de Deus como literalmente revelada na Bíblia; os crentes modernos, racionais e científicos, defensores do progresso e das realizações; e os pós-modernos, multiculturais, crentes sensíveis, defensores de atitudes não marginalizantes e da sustentabilidade ecológica. Esses três grupos de valores estão presentes não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo e, em alguns casos, estão por trás do aparecimento de uma guerra real (embora isso também frequentemente envolva níveis ainda mais baixos, com impulsos de poder Mágico-Míticos).

O que poucas pessoas parecem perceber é que esses três grupos de valores são quase exatamente três dos principais estágios de estruturas do crescimento e desenvolvimento humano anteriormente descritos: os fundamentalistas religiosos tradicionais estão no Mítico-literal, os cientistas modernos estão no Racional e os multiculturalistas pós-modernos estão no Pluralista. Os valores promovidos por cada um desses grupos podem ser quase diretamente vistos nas estruturas desses três principais estágios. Todos esses estágios – Mítico, Racional e Pluralista – são chamados de estágios de “1ª camada”, porque todos os estágios de 1ª camada acreditam que suas verdades e valores são as únicas verdades e valores reais. Eles pensam que todos os outros estágios (exceto o seu) são infantis, equivocados, malucos ou simplesmente errados – daí as Guerras Culturais. E se esses três grupos não estão em realmente em guerra em algum lugar do planeta, eles certamente podem ser encontrados em programas de TV e rádio e na maioria das seções editoriais de todos os grandes jornais – sem mencionar os muitos livros sobre suas visões – argumentando ferozmente sobre o motivo do porque estão certos e os outros estão totalmente errados.

Os cientistas racionais – e os “novos ateus” – acreditam que os pluralistas pós-modernos “sensíveis e atenciosos” são malucos e “woo-woo” [gíria depreciativa para uma pessoa que aceita prontamente fenômenos sobrenaturais, paranormais, ocultos ou pseudocientíficos, ou crenças e explicações baseadas na emoção], e que os fundamentalistas religiosos tradicionais são arcaicos, infantis e perigosos. Os Pluralistas pós-modernos pensam que tanto os cientistas Racionais quanto os fundamentalistas tradicionais estão presos em modos de conhecimento “socialmente construídos”, os quais são culturalmente relativos e que não têm mais valor vinculativo do que a poesia ou os estilos de moda; esse “conhecimento” dá ao pluralista um enorme senso de superioridade (embora em sua visão de mundo, nada deva ser superior). E os fundamentalistas tradicionais pensam que tanto os cientistas Racionais modernos quanto os Pluralistas pós-modernos são todos pagãos incrédulos, destinados a um inferno eterno, então, afinal, quem se importa com o que eles pensam?

O estudo simples de praticamente qualquer importante modelo de desenvolvimento mostrará que a origem e a relação de todos esses três grupos são três dos estágios de crescimento e desenvolvimento geral dos seres humanos, todos eles apropriados para um determinado período de crescimento, mas inadequados, por si só, em fases mais elevadas. Mas como os três últimos níveis da evolução humana ainda emergem [de forma significativa] (paralelamente ao início muito recente do nível Integral) esses três estágios ainda estão lutando pela supremacia – eles estão lutando pelo controle da educação, política, valores cívicos, “valores da América”, religião e espiritualidade, práticas parentais, os valores da vida e assim por diante.

É por isso que o surgimento de valores integrais abrangentes é um desenvolvimento tão revolucionário, radicalmente novo em toda a história. Os estágios integrais dão um passo adiante e perguntam “Quais verdades parciais cada uma dessas verdades de primeira camada tem para contribuir para uma visão mais completa da humanidade?” para assim trabalhar na criação de estruturas de integração, como o modelo AQAL, desta forma reunindo todos esses fragmentos que juntos refletem com mais precisão o Todo da realidade e todas as suas várias interpretações. O resultado é frequentemente chamado de “abordagem de 2ª camada”, e é de fato uma emergência evolucionária radicalmente nova que promete transmutar cada uma dessas áreas mencionadas, além de muitas, muitas outras. Esse movimento está por trás da enorme empolgação e forte otimismo sobre uma possível “transformação global” em direção a uma visão de mundo verdadeiramente unificada; mas, devemos lembrar que não há apenas uma transformação – do “velho paradigma” para o “novo paradigma” – mas existem, e têm existido, pelo menos seis a oito grandes transformações na história, e apenas a mais recente, o surgimento do nível Integral, que neste momento envolve apenas cerca de 5 por cento da população, é vista pelos “transformacionistas globais” como a grande virada de jogo. E realmente ela começou, e é de fato uma virada de jogo. Usando mapas mais sofisticados, tal como o Integral, obtemos uma imagem melhor dos muitos efetivos passos que estão envolvidos nesse processo e o que podemos fazer para acelerar esta revolucionária transformação.

do livro ‘A Religião do Amanhã’ – Ken Wilber

A vanguarda do desconhecido no ser humano

Palestra exclusiva de Ken Wilber para o SAND 16 (Science and Nonduality Conference)

Publicado no Youtube em 21 de outubro de 2016.
https://www.youtube.com/watch?v=8zz95MHLjfo&feature=youtu.be


A vanguarda do desconhecido no ser humano
Ken Wilber

Olá, meus amigos, aqui é Ken Wilber, e quero dizer que honra é estar aqui com todos vocês para esta conversa incrivelmente importante. Embora o tópico que estarei apresentando – e, por favor, não mude de canal quando digo isso -, embora o tópico que estarei apresentando acabe sendo relativamente simples, ele começa um pouco complexo; e pior é que  só temos cerca de uma hora, então terei que prosseguir em um ritmo bastante acelerado. Mas prometo que farei tudo o que puder para tornar isso o mais simples, claro e direto possível. Então, por favor, fique comigo, porque sinceramente não consigo pensar em um tópico mais urgente ou importante em qualquer lugar – o que se tornará cada vez mais óbvio à medida que prosseguirmos. Então, se você seguir em frente, mesmo que comece um pouco devagar, acho que sua importância se tornará cada vez mais evidente. Começa com espiritualidade apenas, mas acaba se aplicando a praticamente todas as atividades humanas, com resultados verdadeiramente revolucionários. Veja se você não concorda.

Mas posso começar resumindo o início desta discussão em algumas frases: agora temos evidências culturais muito convincentes de que os seres humanos realmente apresentam dois tipos bastante diferentes – mas igualmente importantes – de desenvolvimento espiritual ou tipos de consciência espiritual. E isso não é algo óbvio a princípio, mas o fracasso em compreender ambos acaba sendo literalmente catastrófico, afetando tudo, desde a educação à política, ao aquecimento global e ao terrorismo mundial, como veremos cada vez mais. Mas um desses tipos é frequentemente chamado de inteligência espiritual, e essa inteligência espiritual é talvez uma das dúzias de inteligências múltiplas que todos os seres humanos possuem (outras incluem aquelas como inteligência cognitiva, inteligência emocional, inteligência moral, inteligência cinestésica, inteligência musical, inteligência estética e sim, inteligência espiritual). A inteligência espiritual é exatamente isso: nossa abordagem intelectual sobre o Espírito ou Realidade Suprema – como pensamos sobre essa realidade, os conceitos e símbolos que usamos para representá-la, as ideias que formamos a respeito: nossa visão geral do mundo quando se trata de religião ou realidades espirituais. É como falamos sobre o Espírito, quando o abordamos dessa forma. O outro tipo de desenvolvimento não é a inteligência espiritual, mas a experiência espiritual direta. Nossa inteligência espiritual pode nos dizer que, por exemplo, estamos cada um intimamente entrelaçados e interconectados com todas as coisas e eventos em todo o Kosmos, que somos um com o Todo; e, para apoiar isso, podemos citar vários textos espirituais, e também vários outros ramos do conhecimento, como física moderna, mecânica quântica, teoria de sistemas e teoria da complexidade, ideias evolutivas e assim por diante. Essas são todas as ideias contidas na mente quando concebemos ou pensamos sobre o Espírito.

Mas o outro tipo de desenvolvimento não é a inteligência espiritual, mas sim a experiência espiritual direta. Não é como pensar ou falar sobre um caminho, mas sobre a própria experiência de caminhar. Não é nenhum conteúdo da Consciência, mas a própria Consciência. Onde a inteligência espiritual pode nos dizer que somos um com o Todo, com a experiência espiritual, experimentamos direta e plenamente essa unidade com o Todo – não pensamos nisso, SOMOS ISSO, a chamada Consciência Cósmica ou a Suprema Consciência da União não dual ou a Grande Perfeição ou Consciência Crística ou Yeshe ou Ein Sof, e assim por diante.

Esses são dois caminhos muito diferentes. Uma pessoa pode ter uma teoria, mapa, ideia ou entendimento intelectual incrivelmente elaborado do universo entrelaçado – trazendo todo tipo de descobertas científicas de ponta da física moderna para a ecologia -, mas ainda se experimentar como um ego encapsulado na pele, como um irredutível senso de si mesmo separado, existindo em um lado do rosto [interior] e olhando para um mundo separado no outro lado [exterior]. Eles podem pensar que sujeito e objeto são um sistema unificado, entrelaçado ou não dual, mas ainda experimentam a si mesmos como sujeitos isolados, olhando daqui para um mundo de objetos separados, que está por aí. Nesses casos, a inteligência espiritual é elevada, e a experiência espiritual é bastante baixa.

Por outro lado, uma pessoa pode ter uma experiência direta de satori ou despertar, consciência da iluminação ou realização não dual e não ter realmente nenhuma ideia extensa de por que, como ou como é essa experiência. Sua experiência espiritual é profunda, mas sua inteligência espiritual é bastante medíocre (e muitas vezes as ideias que elas usam para explicar o que experimentaram são embaraçosamente arcaicas, desatualizadas ou até infantis e supersticiosas).

Esses dois tipos de engajamento são tão diferentes que a inteligência espiritual é denominada como pertencendo ao caminho geral do Crescimento – porque, como todas as inteligências múltiplas, a inteligência espiritual passa por uma série de estágios de desenvolvimento (ou Crescimento), tornando-se cada vez mais complexa, mais plena, mais inclusiva, mais sofisticada e mais madura (analisarei os estágios reais desse desenvolvimento logo mais). Mas esse é o caminho do Crescimento, enquanto a experiência ou consciência espiritual direta é conhecida como o caminho do Despertar – uma série de experiências diretas e imediatas que não necessariamente crescem ou se desenvolvem, embora possam, mas que são simplesmente experiências diretas e imediatas que se apresentam em sua plenitude desde o início e, embora existam várias formas de vivenciar isso, elas frequentemente envolvem uma experiência direta da união do eu de um indivíduo com toda a existência e seu fundamento divino. Portanto, temos tanto o Despertar quanto o Crescimento, inteligência espiritual e experiência espiritual, nossa conversa espiritual e nossa caminhada espiritual.

Agora, o que há de extraordinário nesses dois tipos de engajamento espiritual – e uma das maneiras pelas quais podemos realmente ver a diferença entre eles – é a diferença chocante na história da humanidade entre quando esses dois caminhos foram descobertos – um, extremamente antigo; o outro, extremamente recente. O caminho do Despertar, por ser direta e imediatamente experimentado, foi entendido de várias formas pela humanidade, ao longo de um período que remonta talvez cerca de 50.000 anos, com as primeiras missões de visão xamânica. E os fundadores de praticamente todas as grandes tradições de sabedoria do mundo – de Moisés a Cristo, Buda, Shankara e Lao Tzu – todos tiveram experiências espirituais profundas de sentirem-se unidos com uma Realidade ou Divindade Suprema, e tentaram transmitir maneiras para seus seguidores terem experiências semelhantes de Despertar. Mas o caminho do Crescimento, que não é tanto uma experiência direta e sim uma estrutura intelectual ou grade interpretativa – esse caminho e seus vários estágios foram descobertos apenas cerca de 100 anos atrás; e aplicado à espiritualidade apenas nas últimas décadas – com resultados profundos e inovadores (como veremos em breve). Mas esse caminho do Crescimento não é uma experiência direta e não pode ser visto olhando-se para dentro, introspectando ou examinando a própria experiência. É muito mais parecido com a gramática, que definitivamente existe e está constantemente ativa em nós e governa a forma como reunimos as palavras, mas não pode ser vista por meio da introspecção ou da observação interna. Todas as pessoas criadas em uma cultura específica acabam falando a língua dessa cultura corretamente – juntam sujeito e verbo corretamente, usam adjetivos e advérbios corretamente, e, em geral, seguem corretamente as regras gramaticais dessa linguagem. Mas se você pedir a qualquer um que escreva essas regras que estão seguindo com tanta precisão, praticamente nenhuma delas poderá fazê-lo. Em outras palavras, todas elas seguem um conjunto bastante extenso de regras, que governa como elas usam sua linguagem e, portanto, de várias maneiras, como elas experimentam seu mundo, mas não têm ideia de que estão fazendo isso. Bem, no tocante aos vários níveis ou estágios do desenvolvimento da inteligência espiritual, no que concerne a esses níveis do Crescimento, são eles mesmos como um tipo de gramática de várias maneiras; eles são um conjunto de regras e padrões que governam como usamos nossa inteligência espiritual (ou qualquer outra inteligência). E é essa descoberta – os vários níveis ou estágios das regras ou padrões básicos que governam nossa inteligência espiritual e nosso Crescimento em geral – que foram descobertos apenas cerca de 100 anos atrás e aplicados algumas décadas atrás. (E, novamente, veremos exatamente quais são esses níveis ou estágios logo mais, a seguir, então… por favor, fique comigo.)

Agora, porque esses detalhes do desenvolvimento da inteligência espiritual – esses estágios no caminho do Crescimento – não podem ser descobertos olhando-se para dentro, introspectando ou examinando a experiência ou a consciência de alguém (eles foram descobertos essencialmente da mesma maneira que a gramática – examinando grandes número de indivíduos e observando seu comportamento por longos períodos de tempo, procurando cuidadosamente repetir padrões comuns e depois observando como esses padrões mudam ao longo de toda uma vida útil) – e porque esses padrões e estágios ocultos foram realmente descobertos apenas cerca de 100 anos atrás, isso era muito recente para ser incluído em qualquer uma das grandes tradições de sabedoria do mundo ou sistemas espirituais de qualquer lugar. De fato, nenhum único sistema espiritual ou religioso em qualquer lugar do mundo tem algo parecido com esses estágios de crescimento espiritual, ou apresenta alguma indicação de que os entendam. E isso acaba sendo… desastroso.

Você já se perguntou por que, por um lado, a religião tem sido reivindicada como a maior fonte única de amor, compaixão, cuidado e moralidade no mundo; e, no entanto, é também, sem dúvida, a maior fonte única de ódio, assassinato, tortura e guerra que os humanos já conheceram? Como o mesmo esforço humano básico poderia resultar em resultados diametralmente opostos? Como diabos isso pôde acontecer? Bem, de acordo com essa pesquisa mais recente, os que estão nos estágios mais baixos do caminho do Crescimento quase sempre interpretam sua espiritualidade de maneiras orientadas pelo poder, de modos egocêntricos e etnocêntricos, predispondo-as, na verdade, a serem motivadas pelo ódio e assim resultando em assassinatos, torturas e guerra – e tudo, é claro, em nome do amor de seu Deus. No entanto, indivíduos nos estágios mais altos de desenvolvimento do caminho do Crescimento quase sempre interpretam sua espiritualidade de maneira aberta, amorosa, compassiva, que inclui todos os seres humanos. O avanço impressionante no século passado é que finalmente descobrimos as principais etapas e estágios gerais pelos quais esse crescimento se desdobra. E assim, pela primeira vez na história, podemos dizer se a realidade espiritual de uma pessoa a inclina ao ódio e à guerra, ou ao amor e à compaixão. Agora sabemos o que causa isso e sabemos como atuar nessa questão. E isso, embora ainda não seja uma informação conhecida, é verdadeiramente revolucionário. 

Observe que isso também significa que, porque, antes desse período recente, nenhuma disciplina humana em qualquer lugar do mundo, incluindo religião e espiritualidade – praticava tanto o Despertar quanto o Crescimento juntos, mas praticava apenas um ou outro e, portanto, até agora, os seres humanos estavam realizando práticas que os tornava parciais, fragmentados e quebrados. De fato, ainda hoje, eles estão trabalhando assim. Toda a história da humanidade, leste e oeste, é uma história de fragmentação. E, no entanto, apenas recentemente temos o entendimento de como podemos incluir esses dois tipos de engajamento em nossa compreensão espiritual geral – de fato, em nosso crescimento e evolução em geral. Isso, novamente, é absolutamente revolucionário.

Então, quais são esses estágios no desenvolvimento ou crescimento de nossa inteligência espiritual? E como esses estágios do Crescimento podem ser combinados com os estados do Despertar para produzir um ser humano inteiro e unificado? Primeiro, vamos observar que a teoria e a prática sobre os estudos de desenvolvimento – que na verdade eram uma ramificação direta da descoberta geral da própria evolução, já que o desenvolvimento é basicamente apenas outra visão da evolução -, o interesse sobre os estudos de desenvolvimento começou, como dissemos, há 100 anos, no início do século 20, com figuras tão desenvolvidas quanto talvez o maior psicólogo da América, James Mark Baldwin. E observe que, enquanto Baldwin foi pioneiro no estudo dos principais estágios do Crescimento, seu contemporâneo William James (muitas vezes considerado o maior psicólogo da América – e eu daria a ele um absolutamente brilhante, segundo lugar), foi pioneiro no estudo dos muitos estados do Despertar – como em seu clássico “As variedades da experiência religiosa” – da experiência espiritual direta. O que ninguém percebeu na época era que essas duas dimensões principais – os estágios do Crescimento e os estados experienciais do Despertar – eram de fato duas dimensões bastante diferentes, mas muito reais e igualmente importantes, e se desdobravam independentemente uma da outra. Como veremos, essa independência relativa acaba por ser de incrível importância, porque o que as pesquisas indicam é que você pode estar em um nível elevado de experiência no Despertar e ainda assim estar em um nível bastante baixo de desenvolvimento no Crescimento – e se é assim, como observamos, sua experiência religiosa tenderá a levá-lo a resultados muito negativos, incluindo ódio e agressão (“em nome de Deus”). Definitivamente, voltaremos a isso, pois aqui estamos entrando diretamente no reino de assuntos como o fundamentalismo etnocêntrico de um “povo escolhido” e o terrorismo religioso, do ISIS ao Hezbollah e aos zelosos batistas do Sul. Não importa a profundidade da experiência com o despertar, ela é interpretada e reduzida a termos muito distorcidos pelos baixos níveis do Crescimento. E como nenhum sistema de despertar espiritual em qualquer lugar do mundo tem algum entendimento dos estágios específicos do Crescimento, não houve [até então] absolutamente nenhuma maneira de verificar isso. E assim, alguém que vivencie algo como o Despertar simplesmente sente, em ambos os casos (alto e baixo, genuíno e distorcido), que está diretamente em contato com uma Realidade espiritual última – essa pessoa experiencia algum tipo de despertar, mesmo que seu crescimento seja horrível; e um crescimento horrível resulta em uma aplicação igualmente horrível do despertar (e, de novo, a pessoa não tem como saber que isso está ocorrendo – porque não se pode ver esses estágios do Crescimento olhando-se para dentro – e, portanto, não têm uma maneira de corrigir isso… e no geral ainda é assim). E praticamente ninguém hoje que realize qualquer tipo de prática do Despertar, inclui esses estágios cruciais do Crescimento – ainda estamos fundamentalmente fragmentados (embora não precisemos mais estar!).

Agora, um último ponto rápido antes de chegarmos aos estágios recentemente descobertos do Crescimento. Estudos de desenvolvimento acabaram revelando que os humanos não têm apenas uma inteligência importante – geralmente chamada inteligência cognitiva e medida com o importante teste de QI. Pelo contrário, como mencionamos brevemente, os humanos têm até uma dúzia de inteligências múltiplas diferentes. Além da inteligência cognitiva, eles têm inteligência emocional, inteligência moral, inteligência linguística, inteligência musical, inteligência interpessoal e, de fato, inteligência espiritual. Como todas elas passam por crescimento e desenvolvimento, costumam ser chamadas de “linhas de desenvolvimento”. E a chave é que, embora essas várias linhas múltiplas de desenvolvimento sejam realmente bastante diferentes uma da outra, todas elas passam pelos mesmos níveis básicos de desenvolvimento. Assim, linhas diferentes, mesmos níveis. A descoberta dessas várias linhas e seus muitos níveis de desenvolvimento foi a descoberta inovadora, uma das descobertas mais centrais em toda a história da psicologia. E foi inovador porque essas múltiplas inteligências (e seus níveis) cobrem virtualmente toda a atividade humana – da ética à educação, à política, à medicina, à ciência, à arte, à história e até às nossas idéias religiosas e espirituais. E quando se trata de espiritualidade, isso é verdadeiro quer sejamos teístas, ateus, agnósticos ou qualquer outra “denominação” – sempre que estamos pensando na divindade ou realidades últimas – mesmo que decidamos que não haja nenhuma e então somos ateus – ainda estamos usando nossa inteligência espiritual – foi assim que ela evoluiu, pensando na preocupação última. Sempre que você pensa em qualquer tipo de realidade última, você está usando sua inteligência espiritual – e a grande descoberta é que ela cresce e se desenvolve por meio de uma sequência bem estabelecida de estágios, como praticamente qualquer fenômeno natural e vivo, de galinhas a carvalhos, amebas e pinheiros – e assim você definitiva e certamente quer certificar-se de que não está partindo dos estágios inferiores, a menos que tenha 5 ou 6 anos de idade. Veremos mais sobre isso em apenas um momento, acho que você pode ver que isso é profundamente importante).

Então, agora ao ponto crucial: quais são exatamente esses níveis ou estágios pelos quais todas as inteligências múltiplas – incluindo a inteligência espiritual – passam? Porque essa foi a principal descoberta importante, esses níveis do Crescimento. Mas deixe-me salientar que é difícil encontrar nomes precisos para esses níveis. A razão é que esses níveis se aplicam igualmente a toda uma dúzia de linhas ou inteligências múltiplas e, ainda assim, qualquer nome em particular tenderá a favorecer apenas uma ou duas linhas – precisamos criar termos que se apliquem igualmente à cognição e à moral e à estética e à música, e assim por diante – creio que você pode ver a dificuldade. Por esse motivo, muitos desenvolvimentistas usam apenas números ou cores para esses níveis. O sistema que eu uso – chamado Metateoria Integral – usa ambos. Mas existem alguns termos que são relativamente inofensivos, e desde que não levemos esses termos muito a sério, desde que lembremos que vários outros termos podem ser aplicados a esses níveis, um conjunto de termos razoavelmente aceitáveis ​​é uma variação daqueles originalmente dados pelo gênio do desenvolvimento Jean Gebser. Para Gebser, todos os seres humanos – tanto ao longo da história quanto no desenvolvimento individual de hoje – passam de um estágio arcaico para um estágio mágico, para um estágio mítico, depois estágio racional, depois estágio pluralista e depois ao estágio integral (e estágios mais altos possíveis com a evolução futura; e novamente, não se deixe perturbar por nomes caso você não goste deles; analisarei cada um desses estágios claramente logo mais, em breve, dando exemplos e explicando a enorme quantidade de pesquisas por trás deles). Mas isso significa que cada inteligência múltipla passa por cada um desses estágios – e, portanto, há uma cognição arcaica, uma cognição mágica, uma cognição mítica, uma cognição racional, uma cognição pluralista e uma cognição integral. Da mesma forma, existe uma inteligência espiritual arcaica, uma inteligência espiritual mágica, uma inteligência espiritual mítica, uma inteligência espiritual racional, uma inteligência espiritual pluralista e uma inteligência espiritual integral – os vários níveis diferentes das maneiras pelas quais interpretamos nossas realidades espirituais, incluindo como interpretamos nossas experiências de despertar (darei alguns exemplos claros de cada uma delas logo mais). E isso é verdade em todas as dúzias de inteligências múltiplas – cada linha diferente passa pelos mesmos níveis básicos – para que esses níveis se tornem profundamente importantes, e sua descoberta foi o evento inovador cerca de 100 anos atrás. Em muitos casos, esses níveis ou estágios em algumas das linhas foram testados em mais de 40 culturas diferentes e não foram encontradas grandes exceções para esses estágios. Uma linha foi testada em tribos da floresta tropical da Amazônia, aborígines australianos, trabalhadores mexicanos, donas de casa de Indianápolis e professores de Harvard – sem grandes exceções gerais. Isso significa que todos os seres humanos, em suas múltiplas inteligências – incluindo a inteligência espiritual – se movem por esses principais níveis básicos, e você não pode pular etapas ou ignorar etapas. Esses estágios são como letras, palavras, frases, parágrafos, tratados completos. Cada um deles é necessário para o próximo nível superior e nenhum pode ser pulado – você não pode ir de letras para frases e pular palavras. O mesmo é verdade na própria evolução – por exemplo, quarks a átomos a moléculas a células a organismos (e você não pode ir de átomos a células e pular moléculas). E lembre-se, você não pode ver esses estágios do Crescimento olhando para dentro ou pela introspecção, assim como, se você olhar para dentro agora, não poderá ver nenhuma das regras da gramática. Mas quando você estiver em um desses estágios (em qualquer linha), esse estágio determinará como você vê, interpreta e experimenta o mundo – e você não tem ideia do que está acontecendo. Está acontecendo agora – e você não pode vê-lo, certo? É exatamente por isso que a humanidade não descobriu isso até cem anos atrás. É importante ter isso em mente.

Então, como exatamente esses estágios do Crescimento se relacionam com nossa consciência espiritual geral? Como esses estágios de crescimento governam as maneiras pelas quais iremos interpretar nossas experiências de Despertar? Porque é isso que a pesquisa descobriu: não importa o grau do Despertar que experimentamos, por exemplo, se estivermos em algo que não seja um estado de consciência totalmente sem forma – ou quando sairmos desse estado – interpretaremos esse estado do Despertar de acordo com o estágio do Crescimento em que estamos. Novamente, esses estágios principais do Crescimento são um tipo de gramática oculta – sem que tenhamos consciência disso, esses estágios, essas gramáticas, governarão como criamos os quadros com os quais interpretamos toda e qualquer experiência que temos – incluindo as experiências sensoriais, a experiência mental e, sim, a experiência espiritual (ou experiência de Despertar). Então, como isso acontece exatamente? E como podemos identificar isso em nós mesmos e, quem sabe, atuar sobre isso?

Agora, logo mais, darei alguns exemplos muito claros de alguns tipos difundidos de espiritualidade que provêm de cada um desses estágios que acabei de listar. Mas, para começar, e para apontar a natureza incrivelmente fundamental desses estágios do Crescimento e como eles governam a maneira como realmente interpretamos e, portanto, experimentamos nosso mundo, vou usar uma versão mais simples desses estágios que, em vez dos 6 a 8 ou mais importantes estágios gerais, que a maioria dos modelos do Crescimento possui – como os estágios de Gebser que acabamos de dar -, possui 4 estágios gerais simples do Crescimento. Esta é apenas uma versão condensada dos  6 a 8 níveis mais comuns que a maioria dos modelos possui; mas são um resumo perfeitamente válido deles e, por serem tão simples, são uma introdução muito boa e mostram muito claramente o que está envolvido aqui. Este modelo do Crescimento é o apresentado por Carol Gilligan. Gilligan se tornou uma sensação feminista com seu livro In a Different Voice, no qual sugeriu que homens e mulheres raciocinam em termos diferentes – em uma voz diferente – quando se trata de problemas morais. Os homens tendem a pensar em termos de autonomia, direitos e justiça, e as mulheres tendem a pensar em termos de relacionamento, cuidado e responsabilidade (e, é claro, qualquer um pode ser uma mistura de qualquer um deles; estas são médias simples). Gilligan, que se engajou em pesquisas reais sobre esse assunto, sustentou que homens e mulheres passam pelos mesmos 4 níveis básicos de desenvolvimento moral, mas cada um deles tende a raciocinar de uma maneira um pouco diferente – “com uma voz diferente”. Como na época em que ela demonstrou isso, a versão masculina geralmente era privilegiada, esse foi um insight extremamente libertador para as mulheres. Então, homem ou mulher, leste ou oeste, aqui estão os principais estágios do Crescimento pelos quais todos os humanos passam, mas como descrito aqui especialmente na voz feminina.

No estágio 1, que Gilligan chama de egoísta – a mulher se importa apenas com ela mesma (também denominamos “egocêntrica”, que significa egocentrada ou narcisista; todos os bebês começam neste estágio, o que Freud chamou de “narcisismo primário” – e não podem assumir o papel do outro ou se preocupar com as necessidades dos outros; ao invés disso, são movidos apenas por suas próprias necessidades e desejos imediatos).

No estágio 2, que Gilligan chama de cuidado, a mulher estende o cuidado de si mesma para um grupo inteiro (de um “eu” a um “nós” – família, clã, tribo, nação, membros de uma família religiosa ou partido político e assim por diante); e a mulher se identifica com esse grupo (ou grupos) e estende o cuidado de apenas a si mesma para todos os membros do grupo, mas há uma divisão acentuada entre o meu grupo e todos os outros grupos de pessoas estranhas e diferentes; atitude muito forte de “nós contra eles” nesse estágio (chamamos esse estágio de “etnocêntrico”, ou centrado no grupo, e também é etnocêntrico no sentido negativo de que, ao identificar-se apenas com um grupo e suas características, ele tende a excluir todos os outros grupos e suas características, por isso tende a ser racista ou sexista ou homofóbico ou xenofóbico, severamente autoritário e rigidamente hierárquico; religioso e fundamentalista, sustentando a crença em um “povo escolhido” que tem o único Deus verdadeiro e o único caminho verdadeiro, e assim por diante). O mundo hoje está passando por uma espécie de explosão de identidade nesse nível, com um grande número de pessoas se vendo como um grupo especial e bom, e praticamente todo mundo – ou certamente vários outros grupos selecionados – como totalmente estranhos, diferentes, problemáticos, que devem ser evitados ou negados, que são mesmo maus. Preocupamo-nos enormemente com o nosso grupo; não nos importamos absolutamente com esses outros grupos; na verdade, geralmente temos medo deles e muitas vezes os detestamos. E a mídia social não ajuda nisso. Mas no mundo inteiro, esse é um resultado direto do desenvolvimento interrompido nesse nível essencialmente baixo de crescimento – e 60 ou 70% da população mundial estão hoje nesse nível etnocêntrico ou inferior de desenvolvimento, 3 de 5, de acordo com o conhecido desenvolvimentista de Harvard Robert Kegan).

Esse tipo de crença preconceituosa e tendenciosa desaparece no próximo estágio principal, o estágio 3, que Gilligan chama não de “cuidado”, mas de “cuidado universal” – a mulher estende o cuidado que dedicava apenas a seu grupo a todos os grupos (uma mudança de “nós” para  “todos nós” – um estágio que também chamamos de “centralizado no mundo”, global ou centrado em todos os seres humanos). A pessoa nesse estágio tenta tratar todas as pessoas de maneira justa, independentemente de raça, cor, sexo ou credo religioso.

E finalmente, no estágio 4, que Gilligan chama de integrado, a mulher integra as vozes masculina e feminina em si mesma, para produzir um ser humano pleno e completo. (Nesta etapa integral, outros desenvolvimentistas também veem como expandir a identidade e o cuidado moral de todos os seres humanos para todos os seres sencientes e toda a vida – o que também chamamos de “kosmocêntrico”.)

Assim, cada um de nós cresce e se desenvolve de egocêntrico a etnocêntrico a centrado no mundo a kosmocêntrico – de “eu” a “nós” a “todos nós” a “todo ser” – os estágios cada vez mais inclusivos do Crescimento. E à medida que nossa identidade se torna cada vez maior, trataremos com preocupação e cuidado moral aqueles com quem nos identificamos; portanto, quanto mais crescermos moralmente, de mais seres trataremos e cuidaremos direta e moralmente; passando de cuidar apenas de mim mesmo, para cuidar daqueles que pertencem apenas ao meu grupo especial, para cuidar daqueles que pertencem a todos os grupos (ou de todos os seres humanos), para cuidar de todos os seres e de toda e qualquer a vida. (E, note-se, qualquer indivíduo pode interromper seu crescimento em qualquer um desses estágios.)

Por exemplo, se você é cristão e tem uma experiência poderosa – talvez num sonho – de ver um ser de luz, e sente uma unidade de amor e felicidade com essa luz e todo o universo – uma verdadeira experiência de Despertar – como exatamente você interpretará essa experiência? Você pode muito bem interpretar esse ser de luz como sendo o próprio Jesus Cristo. Mas como exatamente você experimenta isso?

Se você está no estágio 1, um estágio egoísta ou egocêntrico, pode pensar que você mesmo – e somente você – é o ser da luz – que você é o verdadeiro Jesus Cristo. Portanto, essa experiência suprema da Unidade representada por Jesus Cristo está ocorrendo para você e apenas para você, e você está no centro de tudo, apenas você é Cristo. Nossas instituições mentais estão cheias de pessoas com essa crença. E o fato é que a experiência real deles está certa – eles são um com Jesus Cristo; o problema é que, assim como todo mundo, não apenas eles – a experiência do Despertar está certa, o desenvolvimento no Crescimento está no porão. Então, começando logo ali, no primeiro estágio, você pode ver a importância do Crescimento e do Despertar. Não importa quão profunda ou profundamente essa pessoa experimente sua união ou mesmo sua pura identidade com Cristo.

Agora, se você passou para o estágio 2, o estágio etnocêntrico, você pensará que este é o Salvador do seu grupo especial, porque seu grupo é o povo escolhido e essa experiência de Unidade religiosa estará disponível apenas se, neste exemplo, você aceitar Jesus como seu salvador pessoal. Mesmo se você se sentir um com a Divindade e com o mundo inteiro, você pensará que são apenas as pessoas do seu grupo escolhido (que aceitaram Jesus) que podem ter essa experiência de maneira real e verdadeira. Outros podem pensar que têm, mas realmente não têm. Sua interpretação da necessidade absoluta de aceitar Jesus Cristo como seu salvador – a certeza absoluta dessa interpretação – governa sua experiência. Você ainda se sentirá unido, mas somente as pessoas escolhidas poderão se juntar a você. Se você estiver numa versão extrema deste estágio, você pensará que é seu dever convencer diretamente ou até coagir os incrédulos a aceitarem esse único Deus verdadeiro – e agora você tem provas experimentais diretas desse primeiro e único Deus verdadeiro – a prova é que esse ser de luz radiante é o próprio Cristo com o qual agora você é um, precisamente porque aceitou Jesus como seu único salvador, uma salvação disponível para os outros se e somente se eles também aceitarem a Cristo; caso contrário, eles são destinados a tormento, dor e sofrimento sem fim – e, portanto, “Soldados cristãos marchando para a guerra” se torna sua música tema. A jihad – cruzadas de qualquer nome – vem com esse estágio. Você pode se envolver em violência direta em nome de seu Deus, se você é um “terrorista” das clínicas de aborto no sul, ou participa de uma guerra religiosa como a incrivelmente cruel que ocorreu entre católicos e protestantes irlandeses ou agora está ocorrendo entre budistas cingaleses e hindus tâmeis no Sri Lanka, ou judeus e palestinos israelenses ou hindus indianos e muçulmanos paquistaneses ou irá se envolver em terrorismo direto como ISIS ou Al Qaeda ou Boko haram, ou o grupo terrorista budista que jogou gás sarin venenoso no sistema de metrô de Tóquio. Em cada um desses casos – e todas as principais religiões são totalmente suscetíveis a isso – você acredita que somente você e seu grupo têm acesso ao único e verdadeiro Deus ou realidade final ou apenas ao caminho espiritual real, e todas as outras pessoas estão atadas a algum tipo de inferno, sofredores incrédulos ou não iluminados, reencarnando perpetuamente; e é seu trabalho convertê-los ou erradicá-los.

Esse tipo de motivação termina no estágio seguinte, estágio 3, em que o cuidado se expande para o cuidado universal – o cuidado com todos ou o estágio centrado no mundo. Se você atingiu esse estágio no seu Crescimento, tentará tratar todas as pessoas de maneira justa, independentemente de raça, cor, sexo ou credo religioso. Você mudou de “nós” para “todos nós” e, portanto, seu cuidado e preocupação moral se expandiram de um “nós” etnocêntrico para um “todos nós” centrados no mundo. Você começará a ver Jesus Cristo, não como o único Filho, do seu Deus único, dado ao seu primeiro e único povo escolhido, mas como um genuíno professor do mundo entre vários outros genuínos professores do mundo, cada um dos quais tem algo profundamente importante para nos ensinar. Este é realmente um passo muito difícil de captar na inteligência espiritual de uma pessoa – neste exemplo, você quer dizer que Jesus não é o único salvador? Ele não é o único Filho de Deus, que morreu na cruz por nossos pecados? Se você foi ensinado, neste estágio mítico ou cuidadoso, que sua salvação eterna depende diretamente de você acreditar nesse mito – e se você não acreditar, você queimará para sempre no inferno – então ficará extremamente relutante, até profundamente amedrontado, em renunciar a essa crença – isso é angustiante para muitas pessoas – é descrito como “estou perdendo minha fé” ou “não acredito mais em Deus” ou “perdendo minha religião” – quando tudo o que realmente está ocorrendo é desidentificar-se de um nível mais baixo de sua inteligência espiritual, à medida que abre espaço para um nível mais elevado, mais expansivo e mais inclusivo.

Mas lembre-se de que esse estágio de crescimento do mundo é, na verdade, um nível bastante raro de desenvolvimento em geral, e na crença espiritual em particular. Observe que foi somente no Vaticano II, há poucas décadas, que a própria Igreja Católica reconheceu que uma salvação igualmente genuína estava disponível em outras religiões além do catolicismo – a primeira vez em seus dois mil anos de história que o fez, assim movendo-se de um estágio etnocêntrico de crescimento espiritual para um estágio de crescimento mundial – finalmente.

Mas a tentativa de tratar todas as pessoas de maneira justa, independentemente de raça, cor, sexo ou credo, significou que, quando esse estágio surgiu pela primeira vez no cenário mundial em uma escala significativa, há cerca de 300 anos, todas as nações centradas no mundo proibiram totalmente a escravidão, a primeira vez em toda a nossa história que algo assim já aconteceu (até os indígenas tinham escravidão – na verdade, eles a inventaram). Essa emancipação e libertação humanas foram devidas diretamente à mudança da cultura de um nível de desenvolvimento etnocêntrico para um nível mundicêntrico. Ao mesmo tempo em que isso ocorreu, houve as revoluções francesa e americana, tentando tirar o poder de uma monarquia e aristocracia etnocêntrica e colocá-lo nas mãos de uma democracia centrada no mundo. O número total de mudanças, à medida que esta etapa emergiu no mundo, foi extraordinário.

E isso não é de menor importância no cenário mundial agora – como observamos, algo entre 60 e 70% da população mundial hoje ainda estão nos estágios etnocêntricos (ou inferiores) do Crescimento. E, em muitos casos, eles são mantidos nesses estágios etnocêntricos por religiões que não mudaram de etnocêntricas para centradas no mundo ou mundicêntricas. Observe que a maioria das grandes religiões do mundo nasceu durante o período mítico do próprio desenvolvimento e evolução geral da humanidade – e o nível mítico-literal ou apenas mítico é um nível profundamente etnocêntrico – e, portanto, praticamente todos eles têm algum grau de etnocentrismo, apenas uma única forma de verdade ou crença em seu status de superioridade divina. E assim congelam seus próprios seguidores no mesmo caso de desenvolvimento interrompido que eles mesmos têm – e, portanto, estão abertos ao terrorismo, fogueira ou decapitações, tortura e assassinato e guerra santa, tudo em nome do único e verdadeiro Deus. Esta é talvez a corrente cultural mais inflamada do mundo atual. Portanto, esse movimento da inteligência espiritual etnocêntrica para a inteligência mundicêntrica é uma das transformações mais importantes que a humanidade enfrenta agora em qualquer lugar deste planeta. Mas, sem nenhuma compreensão desses estágios do Crescimento, não temos como reconhecer esse problema – a não ser que possamos ver como é uma bagunça completa no cenário mundial. Portanto, esse movimento da inteligência espiritual etnocêntrica para a inteligência espiritual mundicêntrica é uma das transformações mais importantes que a humanidade enfrenta agora em qualquer lugar deste planeta. Mas, sem nenhuma compreensão desses estágios do Crescimento, não temos como reconhecer esse problema – a não ser que possamos ver como é uma bagunça completa no cenário mundial. 

Apenas, como informações de fundo, como os de 6 a 8 estágios de desenvolvimento mais comuns dados pela maioria dos modelos de desenvolvimento – como o de Gebser (arcaico, mágico, mítico, racional, pluralista, integral) – se ajustam aos estágios de Gilligan (egoísta, cuidado, cuidado universal , integrado – ou egocêntrico, etnocêntrico, centrado no mundo, kosmocêntrico)? Falando de forma bem direta os estágios arcaico e mágico são ambos egocêntricos; o estágio mítico, como acabamos de mostrar, é etnocêntrico; os estágios racionais e pluralistas são mundicêntricos; e o estágio integral ou integrado é kosmocêntrico. Acabamos de dar alguns exemplos de religião de cada um dos quatro estágios de Gilligan, e logo mais farei a mesma coisa com os seis principais estágios de Gebser, a fim de ajudar a fazer essa progressão desenvolvimentista ou evolutiva a respeito da inteligência espiritual ou no crescimento espiritual, claro.

Mas primeiro, com relação ao último e mais elevado estágio a emergir até agora na evolução – o integral ou integrado ou o kosmocêntrico -, deixe-me mencionar alguns itens que as pesquisas encontraram, porque se trata de informações incrivelmente importantes. Esta é a razão pela qual, ao procurarmos uma consciência espiritual mais ampla e abrangente, queremos incluir não apenas o Despertar com o Crescimento, mas despertar com os estágios mais altos ou mais elevados do Crescimento. Aqui está o que isso significa.

Para ver isso, vamos seguir em frente e começarei apresentando os estágios gerais de Gebser e as variedades de experiências religiosas que são encontradas e apoiadas por cada um desses estágios (arcaico, mágico, mítico, racional, pluralista e integral). Resumidamente, temos o estágio arcaico (que significa um estágio inicial e primitivo do desenvolvimento, a transição dos grandes símios para os humanos – a partir de um milhão de anos atrás – e experimentado no indivíduo de hoje apenas durante o primeiro ano ou pouco mais de vida; nenhuma religião explícita neste estágio).

Então, o estágio mágico, que também é chamado de algo como “animista”, significa que a consciência humana e a consciência de seu entorno não são totalmente diferenciadas e, portanto, manipular uma imagem mental de uma coisa é mudar magicamente essa coisa – como no vodu ou santeria, onde, se você criar uma imagem de boneca de uma pessoa humana e colocar um alfinete nessa boneca, a pessoa real ficará doente. Um exemplo de cristianismo mágico é a escola dos encantadores de cobras, que acredita que se você tem verdadeira fé em Cristo e lida com cobras venenosas, a cobra não será capaz de morder você. O líder de uma das maiores congregações de encantadores de cobras acaba de morrer muito jovem – de uma picada de cascavel. O estágio mágico surgiu pela primeira vez há cerca de 200.000 anos na evolução coletiva e nos indivíduos de hoje entre 1 e 3 ou 4 anos.

Então o estágio mítico-literal ou apenas mítico, que é exatamente isso: os mitos são considerados literal e absolutamente verdadeiros, não simbólicos ou metafóricos: Moisés realmente dividiu o Mar Vermelho, Deus realmente choveu fez chover gafanhotos sobre os egípcios, a esposa de Ló realmente foi transformada em um saco de sal, Lao Tzu realmente tinha 900 anos quando nasceu, e assim por diante. Como o estágio mítico é profundamente etnocêntrico, a maioria das escolas religiosas fundamentalistas de “pessoas escolhidas”, como observamos, são mítico-literais; esse estágio surgiu a partir de 10.000 anos atrás e, no desenvolvimento de hoje, ocorre entre as idades de 5 a 10 anos – e embora o ponto seja que hoje, todos iniciem seu desenvolvimento no primeiro estágio, o inicial arcaico, eles podem interromper seu desenvolvimento praticamente em qualquer um dos estágios seguintes (mágico, literal mítico, racional, pluralista, integral); e isso significa que a religião etnocêntrica mítico-fundamentalista interrompeu seu desenvolvimento no nível mítico-literal em termos de inteligência espiritual. Agora, qualquer pessoa em qualquer um desses estágios ainda pode ter uma genuína experiência de Despertar – mas, como vimos anteriormente, alguém que experiencie algo como “Eu sou Cristo”, interpretará sua experiência de Despertar a partir do estágio do Crescimento [em que estiver operando] – por exemplo nesse estágio mítico-literal, etnocêntrico, estenderá o cuidado moral apenas ao seu grupo dos “verdadeiros crentes” e ao seu “povo escolhido”; considerando todos os outros [que não compartilham de sua visão] como incrédulos, suspeitos, possivelmente maus, provavelmente condenáveis e detestáveis.

Então, o estágio racional – e racional não significa secamente abstrato ou analítico, apenas significa capaz de uma perspectiva de terceira pessoa centrada no mundo ou universal, o estágio do cuidado universal. Buda teve uma apresentação muito racional de sua espiritualidade; estava diretamente focado em uma experiência genuína de Despertar ou Iluminação, mas quando falou sobre isso, ele o explicou em termos muito racionais ou razoáveis ​​- não usou termos mágicos, nem usou termos míticos, não falou sobre deuses ou deusas ou espíritos da natureza ou qualquer coisa assim. Em vez disso, ele explicou seu sistema de meditação e seus efeitos em termos muito racionais, e então, quando se tratou daquela experiência direta do Despertar ou da iluminação, que é transracional, ele simplesmente disse “não posso descrever isso” – e ele se recusou – e disse simplesmente que você precisa experimentar isso por si mesmo – e então explicou muito racionalmente os passos meditativos a serem seguidos para experimentar essa realidade transracional do Despertar. Como a inteligência espiritual de Buda era racional, centrada no mundo ou baseada no cuidado universal, ele disponibilizou sua espiritualidade a todos os indianos, incluindo os intocáveis, o que era inédito – e também foi responsável pelo fato de o budismo realmente ter decolado com muitas pessoas. Mas o despertar de Buda estava em um estado conhecido como turiya (consciência sem um objeto) ou pura extinção sem forma ou nirodh ou nirvana, e sua inteligência espiritual ou de crescimento estava em um estágio maduro de atenção universal racional; em evolução, vislumbres do estágio da razão surgiram pela primeira vez nos séculos VI ou VII a.C. (com os gregos a Buda) e emergiram em um nível cultural difundido com o Iluminismo Ocidental (que, como todos os estágios, teve seus altos e baixos, seus aspectos positivos e negativos); no indivíduo de hoje, esse estágio racional geralmente está disponível a partir da adolescência.

Então, o estágio pluralista, também conhecido como multicultural ou diversidade ou relativista, o estágio que impulsiona grande parte do pós-modernismo, pois a racionalidade impulsionou muito do modernismo. A religião, nesta fase, reconhece uma multiplicidade multicultural e diversidade de compromissos religiosos, todos eles potencialmente benéficos. Esse é o nível de inteligência espiritual que cada vez mais a população está alcançando e, começando com a geração boomer dos anos 60, tornou-se bastante óbvio em muitos millennials. Surgiu pela primeira vez de qualquer forma significativa com a revolução dos anos 60 e está geralmente disponível para indivíduos a partir da idade adulta jovem.

Finalmente, até o momento, o estágio integral (que explicarei logo mais).

Agora, esses primeiros 5 ou 6 estágios do Crescimento são conhecidos como estágios de “primeira camada”, para distingui-los do estágio integral profundamente diferente, que é chamado de “segunda camada”. A razão é que, por mais diferentes que sejam os estágios da 1ª camada, todos eles têm algo  em comum: cada um deles pensa que sua verdade e seus valores são a única verdade e valores reais existentes; todos os outros são confusos, infantis, patetas ou simplesmente errados. Mas o estágio integrado ou integral – e esse é o motivo do nome – pensa que todos os estágios têm algum tipo de importância e significado, todos precisam ser incluídos, pois todos são partes de um crescimento e desenvolvimento humano geral. Portanto, todos esses estágios precisam ser levados em consideração em qualquer abordagem para qualquer problema abordado. E não levar em conta como qualquer um desses estágios vê o mundo é deixar completamente de fora um número significativo de pessoas; porque o que a pesquisa descobriu é que todos nascem na estaca zero – o arcaico – e precisam começar seu desenvolvimento, em toda e qualquer linha, nesse nível, e depois avançar a partir daí – e, novamente, podem parar em qualquer estágio. Portanto, qualquer população terá pessoas em todos esses estágios e níveis. E esse fato por si só muda nossa abordagem para todos os problemas humanos existentes. O estágio integral, como a vanguarda da evolução humana de hoje – e que busca a unificação e a integração, sistemática, paradigmática, transdisciplinar, metateórica, por meio de práticas inclusivas, em tudo o que toca – ainda é relativamente raro.

Mas estamos começando a ver, em todo o mundo e em praticamente todos os ramos do conhecimento, o surgimento de teorias e práticas originárias desse nível integral, como aparece no ramo em particular; e essas novas teorias integrais são sistêmicas, unificadoras, mais abrangentes e inclusivas, transdisciplinares e paradigmáticas, reunindo todo tipo de ideias unificadoras e integradoras em visões gerais holísticas sistêmicas, unindo ciência e espiritualidade e praticamente todas as outras disciplinas (como, por exemplo, SAND). Mas, apesar da enorme empolgação que essas abordagens : de ponta estão provocando, ainda há um número relativamente pequeno de pessoas que podem entender e defender completamente essas abordagens metateóricas integrais – cerca de 5% da população, como observamos. (E, aliás, isso certamente inclui você, se você já ouviu até agora. Não é nada para se gabar, é simplesmente do jeito que é.) Mas as alegações animadas de que a humanidade está prestes a passar pela maior transformação em toda a sua história para esse novo entendimento integralmente unificador são um pouco prematuras. Mas este é o futuro extraordinário da humanidade, se pudermos sobreviver a este período até sua emergência evolutiva mais difundida. Será um final digno de registro em foto.

Enquanto isso, o que esta pesquisa nos diz é que, quando se trata de qualquer linha – incluindo inteligência espiritual – porque queremos incluir todos os níveis, queremos também ser capazes de interpretar nosso mundo a partir de uma perspectiva integral, de segunda camada, que inclua tudo. E na espiritualidade, isso significa incluir todos os aspectos do Despertar, bem como entender como eles são interpretados de maneira diferente por cada um dos estágios do Crescimento – e ajudar as pessoas a transformar sua inteligência espiritual através desses estágios do Crescimento para níveis mais amplos e elevados, para níveis mais inclusivos (o que chamamos de esteira transportadora). E quanto a nós mesmos, idealmente, queremos nos engajar em práticas que nos ajudarão a realizar os estados mais profundos do Despertar autêntico, e queremos interpretar essas experiências de iluminação a partir de um nível integral de crescimento.

E no entanto, é claro, esses estágios e níveis gerais de desenvolvimento humano, de crescimento humano, são praticamente desconhecidos no mundo em geral, incluindo a maioria de nossos líderes de pensamento. Não existe um único sistema político ou mercado econômico ou departamento militar ou abordagem ou religião ou prática espiritual que aborde esses estágios. No entanto, incluí-los é uma mudança completa no jogo – e é desastrosamente subutilizada.

Tomemos, como apenas um exemplo simples, mas generalizado, a afirmação comum de que o que a cultura ocidental precisa desesperadamente, por ser tão patriarcal, é de um influxo em larga escala de valores femininos. Você já ouviu muito isso, certo? Mas veja o modelo feminino de Gilligan em si. O que este mundo definitivamente NÃO precisa é de mais valores femininos nos estágios 1 e 2. Certamente não precisamos de mais visões egocêntricas e etnocêntricas / racistas / sexistas – claramente, não precisamos disso – mas esses são exatamente os valores femininos que esses estágios iniciais apresentam. O que precisamos muito – muito mesmo – é de mais valores femininos dos estágios 3 e 4 – centrados no mundo e integrados. Simplesmente ser mulher não é suficiente para contribuir automaticamente com algo positivo para a sociedade. De fato, se você está entre os +/- 60% do sexo feminino nos estágios iniciais, você provavelmente não está ajudando muito essa cultura. Vê como isso muda completamente o problema – e sua solução real?

Agora, para concluir esta apresentação, vou apenas lançar uma última informação, com poucas explicações, apenas um asterisco “vale a pena notar”. Várias pessoas que aprenderam sobre esses estágios do Crescimento também começaram a examinar os vários sistemas do Despertar ao redor do mundo e perceberam que a grande maioria dos sistemas mais sofisticados (incluindo o budismo vajrayana, o hinduísmo vedanta, o misticismo neoplatônico cristão, o sufismo, a Cabala, entre outros), todos descreveram um curso geral do Despertar como consistindo também de uma sequência de estágios de desenvolvimento progressivamente avançados. Ao contrário dos estágios dos níveis do Crescimento – que não podem ser vistos ou experienciados olhando para dentro -, esses estágios do Despertar são estágios na experiência imediata direta, estágios na experiência espiritual ou na consciência meditativa. E mais: os estágios básicos de todos esses vários sistemas em todo o mundo mostram muita semelhança – das 7 mansões de Santa Teresa aos estágios de São João da Cruz e os do budismo Mahamudra, o sistema de yoga de Patanjali, o sufismo islâmico, a cabala judaica , entre muitos outros. Como esses eram estágios de experiência direta – não gramática oculta – muitos sistemas espirituais ao redor do mundo estão plenamente conscientes desses estágios há séculos, e quase todos eles deram mapas desses estágios – e, novamente, esses mapas mostram uma sequência notavelmente semelhante de estágios de experiência ou consciência espiritual cada vez mais profunda. Um desses mapas – explicitamente encontrado no budismo tibetano e no hinduísmo do Vedanta, entre outros – tem estágios que vão da consciência grosseira (ou típica de vigília) à consciência sutil (ou luminosa), à consciência causal (ou sem forma), à pura consciência.

Cada um desses estágios tem seu próprio tipo de experiência espiritual direta – do misticismo grosseiro da natureza ao misticismo sutil das divindades, ao misticismo causal sem forma ao misticismo final não dual (ou “unidade”). Mas as escolas que estão cientes desse estágio mais elevado – o da não dualidade, ou radicalmente inclusivo, a sempre presente Quididade – sustentam que esse é realmente o potencial máximo ou mais elevado da consciência espiritual disponível em qualquer lugar (simplesmente porque, na evolução até agora, é o estágio mais elevado já experimentado em qualquer sequência meditativa ou contemplativa em qualquer lugar do mundo). Essa não dualidade radical tornou-se bastante conhecida por um pequeno mas crescente grupo de líderes de pensamento e buscadores espirituais em todo o mundo.

Mas o ponto que precisa ser acrescentado é que as práticas que ajudam um indivíduo a realizar um despertar espiritual para uma não dualidade final não são iguais às que ajudam o indivíduo a passar pelos níveis do Crescimento. E, de fato, pode-se estar em qualquer estágio do Crescimento e ter uma experiência dessa consciência última da unidade não dual (ou, de fato, uma experiência de qualquer um dos estágios anteriores do Despertar). Portanto, a conclusão final de tudo isso é muito simples: o que idealmente queremos fazer é experimentar esse estado mais elevado do Despertar, desde o nível mais elevado até o momento do caminho do Crescimento. Não dual interpretado por integral. Não dualismo integral (que é o fundamento da metateoria integral e da metaprática). Mas acho que tudo o que disse até agora deve deixar essa conclusão bem clara.

Mas como você realmente interpretará e, assim, realmente experimentará a sempre presente Unidade, Não dualidade ou Despertar, depende do estágio do Crescimento em que você está. Indivíduos que recomendam fortemente que se tenha a experiência da perfeição do Único Sabor praticamente nunca mencionam nada sobre o estágio do Crescimento. Assim, você pode olhar para um livro como Zen at War, que contém os pensamentos de vários mestres zen altamente respeitados pela profundidade de sua iluminação ou despertar não dual, e ainda encontrá-los advogando muitas ideias óbvias e embaraçosamente etnocêntricas, preconceituosas e intolerantes – e porque nenhum sistema espiritual contém esses estágios do Crescimento, e porque você não pode vê-los apenas olhando para dentro, esses mestres não têm como conhecer sua incrível deficiência.

Portanto, nossa simples conclusão geral é que idealmente devemos lembrar pelo menos duas coisas: não queremos apenas descrever essa não dualidade definitiva, usando nossa inteligência espiritual e talvez recorrendo a ramos de vanguarda da própria ciência – não queremos apenas falar isso ou descrever intelectualmente isso (seja qual for o estágio do Crescimento); também queremos caminhar: queremos ter uma experiência espiritual direta ou real ou a realização dessa unidade não dual ou Despertar – não apenas nossas ideias sobre isso (ou o crescimento intelectual). E segundo ponto, quando se trata do Crescer, queremos que ele se origine do nível mais elevado de desenvolvimento que pudermos gerenciar, idealmente o nível integral. Queremos incluir o melhor do Despertar e o mais elevado do Crescer. Por que diabos nós realmente buscaríamos menos – já que cada um deles inclui e abraça TODOS os seus antecessores? Qual é o objetivo de buscar deliberadamente muito menos do que você pode ser?

(E, a propósito, se você não se sentir confortável com os estágios do Despertar, não vou insistir. Use qualquer versão da sua experiência espiritual genuína ou do Despertar autêntico, e tudo bem. O que não é o mais discutível é que, qualquer que seja sua versão do Despertar, você a interpretará de acordo com os estágios do Crescer. As evidências aqui são inflexíveis.)

Então, o ponto um tanto surpreendente é que – embora a partir de uma perspectiva, todos esses estágios de ambos os caminhos são totalmente e genuinamente aceitos (e eu realmente quero dizer isso) -, ao mesmo tempo, ficamos significativamente desconectados de qualquer um desses caminhos, e assim, provavelmente não devemos estar facilitando esse processo; e, como vimos, podemos muito bem estar obstruindo-o. Por outro lado, apoiar uma espiritualidade que provém dos estados mais profundos do Despertar e dos estágios mais elevados do Crescimento deve partir dos melhores e mais brilhantes que já estão na vanguarda da própria evolução, uma postura revolucionária que, pela primeira vez na história, apenas recentemente se tornou disponível. Que todos possamos tirar proveito desta ocasião tão extraordinária – fazer com que a espiritualidade deixe de uma vez por todas de ser uma fantasia infantil da humanidade, etnocêntrica,  racista e sexista, indutora de jihad, para assim permitir que ela ilumine plenamente a partir de suas melhores e mais brilhantes e mais autênticas formas, conduzindo os humanos e a história para uma das transformações mais profundas já ocorridas no contínuo desenrolar da evolução. Aqui foi Ken, muito obrigado e, por favor, cuide-se.

Tradução e Adaptação: Paulo C S Passini
Revisão: Jorge Watanabe

Pandemia e as altitudes de consciência

Em tempos de pandemia, uma breve reflexão sobre os níveis de crescimento ou desenvolvimento e suas correlatas visões sobre como se proteger.

Mas o que são níveis de crescimento ou desenvolvimento – as altitudes de consciência?

“Níveis de crescimento ou desenvolvimento (altitudes de consciência) são estudados por praticamente todas as várias escolas modernas sobre desenvolvimento humano. Tratam-se dos estágios/níveis que emergiram e tomaram forma ao longo do processo histórico de evolução humana – um processo de sedimentação arqueológica de camada após camada, de ser humano e consciência. E hoje, cada pessoa ao nascer, cresce e se desenvolve na mesma ordem em que esse níveis foram originalmente estabelecidos” – KW.

Veja abaixo, as possíveis visões sobre como se proteger, de acordo com cada nível de desenvovimento…

Nível 1 – Infravermelho – Arcaico: Para sobreviver preciso atender os meus impulsos e necessidades fisiológicas básicas (alimento, água, calor, abrigo, etc).

Nível 2 – Magenta – Mágico: O “grande deus sol” (ou qualquer outra entidade natural/sobrenatural de poder) irá me proteger de qualquer malefício. Faço oferendas para agradá-lo e assim desfrutar de seus cuidados.

Nível 3 – Vermelho – Poder: Sou forte, destemido e imbatível. Enfrento qualquer perigo com total certeza de minha vitória. Nada irá me sobrepujar.

Nível 4 – Âmbar – Mítico: Seguindo as leis do ‘Senhor’ e sujeitando-me a sua vontade, estarei protegido e finalmente me tornarei mereceredor das alegrias da vida eterna.

Nível 5 – Laranja – Racional: Observando as evidências e teorias comprovadas pela experimentação científica, adoto o comportamento apropriado para me proteger dos perigos do contágio, assim salvaguardando a vida, um bem fundamental.

Nível 6 – Verde – Pluralista: A melhor maneira de me proteger é seguir minha visão pessoal e particular sobre a questão, respeitando com igualdade a diversidade de visões e atitudes das outras pessoas. Ninguém pode ser obrigado ou oprimido a seguir está ou aquela determinação. Todos devem ser livres para esolher seus próprios caminhos.

Nivel 7 – Turquesa – Integral: Adotando uma abordagem ampla, abrangente e inclusiva sobre a diversidade de visões relacionadas com a questão, e analisando as inúmeras interconexões resultantes da interação de diferentes perspectivas, adoto as melhores práticas e atitudes com a finalidade promover e salvaguardar o meu próprio bem-estar e o desenvolvimento e bem-estar dos outros.

Todos nós, em maior ou menor grau, surfamos essas ondas de desenvolvimento… Mas com qual visão você mais se identifica?

por Paulo C. S. Passini

Para saber mais sobre a Teoria Integral e os níveis de crescimento ou desenvolvimento, clique aqui!