A Grande Busca

A Realização das Tradições Não-duais é intransigente: há somente o Espírito, há somente Deus, há somente o Vazio em toda a sua maravilha radiante. Todos os bons e todos os maus, os melhores e os piores, os retos e os degenerados – todos e cada um são manifestações radicalmente perfeitas do Espírito, exatamente como são. Não há nada além de Deus, nada além da Deusa, nada além de Espírito em todas as direções, e nenhum grão de areia, nenhuma partícula de poeira, é mais ou menos Espírito do que qualquer outro.

Esta realização desfaz a Grande Busca que é o coração do self separado. O self separado é, no fundo, simplesmente uma sensação de busca. Quando você se sente agora, basicamente sentirá uma pequena tensão ou contração interior – uma sensação de agarrar, desejar, desejar, querer, evitar, resistir – é uma sensação de esforço, uma sensação de busca.

Em sua forma mais elevada, essa sensação de busca assume a forma da Grande Busca pelo Espírito. Desejamos sair de nosso estado não esclarecido (de pecado ou ilusão ou dualidade) para um estado iluminado ou mais espiritual. Desejamos chegar de onde o Espírito não está, para onde o Espírito está.

Mas não há lugar onde o Espírito não esteja. Cada único local em todo Kosmos é igualmente e totalmente Espírito. Procuras de qualquer tipo, movimentos de qualquer tipo, realizações de qualquer tipo: tudo profundamente inútil. A Grande Busca simplesmente reforça a suposição equivocada de que há algum lugar que o Espírito não está, e que eu preciso sair de um espaço que falta para um espaço que está pleno. Mas não há falta de espaço, e não há espaço mais pleno. Só existe o Espírito.

A Grande Busca do Espírito é simplesmente esse impulso, o impulso final, que impede a realização presente do Espírito, e o faz por uma simples razão: a Grande Busca pressupõe a perda de Deus. A Grande Busca reforça a crença equivocada de que Deus não está presente e assim obscurece totalmente a “realidade da Presença sempre presente de Deus. A Grande Busca, que finge amar a Deus, é na verdade o próprio mecanismo de afastar Deus; O mecanismo de prometer encontrar amanhã o que existe apenas no intemporal agora; O mecanismo de olhar o futuro tão fervorosamente que o presente sempre passa por ele – muito rapidamente e o rosto sorridente de Deus com ele.

A Grande Busca é a contração amorosa escondida no coração do self separado, uma contração que impulsiona o anseio intenso de um amanhã no qual a salvação chegará finalmente, mas durante esse tempo, graças a Deus, posso continuar a ser eu mesmo. Quanto maior a Grande Busca, mais posso negar a Deus. Quanto maior a Grande Busca, mais eu posso sentir minha própria sensação de busca, que define os contornos do meu eu. A Grande Busca é o grande inimigo do que é.

Deveríamos então simplesmente cessar a Grande Busca? Definitivamente, se pudéssemos. Mas o esforço para parar a Grande Busca é em si mais da Grande Busca. O primeiro passo presume e reforça a sensação de busca. Não há realmente nada que a auto-contração possa fazer para deter a Grande Busca, porque a auto-contração e a Grande Busca são dois nomes para a mesma coisa.

Se o Espírito não puder ser encontrado como um produto futuro da Grande Busca, então há apenas uma alternativa: o Espírito deve estar totalmente, totalmente, completamente presente agora – E você deve estar total, completamente, completamente consciente disso agora. Não vai fazer para dizer que o Espírito está presente, mas eu não percebo isso. Isso exigiria a Grande Busca; Que exigiria que eu buscasse um amanhã no qual eu pudesse perceber que o Espírito está plenamente presente, mas tal busca perde o presente no primeiro passo. Continuar procurando seria manter-se ausente. Não, a realização em si, a consciência em si: isto, também, de alguma forma deve estar completamente e completamente presente agora. Se não for, então tudo o que resta é a Grande Busca, condenado a presumir que ele deseja superar.

Deve haver algo sobre nossa consciência presente que contém toda a verdade. De alguma forma, não importa qual seja o seu estado, você está imerso plenamente em tudo que você precisa para a iluminação perfeita. Você está olhando para a resposta. Cem por cento do Espírito está em sua percepção agora. Não 20 por cento, nem 50 por cento, nem 99 por cento, mas literalmente 100 por cento do Espírito está em sua consciência agora – e o truque, por assim dizer, é reconhecer esse estado de coisas sempre presente e não projetar um futuro Estado em que o Espírito se anunciará.

E este simples reconhecimento de um Espírito já presente é a tarefa, por assim dizer, das grandes tradições Não Duais.

Ken Wilber
www.integrallife.com

 

A espiral do desenvolvimento

Clare Graves foi um dos primeiros (juntamente com James Mark Baldwin, John Dewey e Abraham Maslow) a considerar um esquema desenvolvimentista e mostrar sua extraordinária aplicabilidade numa ampla gama de atividades, em negócios, no governo, em educação.


O trabalho de Graves foi retomado e ampliado significativamente por Don Beck. Spiral Dynamics, escrito com seu colega Christopher Cowan (eles fundaram o National Values Center), é uma magistral aplicação de princípios desenvolvimentistas em geral (e de princípios de Graves em particular) para um vasto leque de problemas socioculturais. Longe de serem analistas de escritório, Beck e Cowan participaram das discussões que culminaram com o fim do apartheid na África do Sul (e depois prosseguiram, usando os mesmos princípios, montando a estratégia de “corações e mentes” da equipe de rugby sul-africana, que venceu a Copa do Mundo de 1995). Os princípios da Espiral do Desenvolvimento foram aplicados frutiferamente para reorganizar negócios, revitalizar comunidades, reformar sistemas educacionais e apagar o estopim de tensões internas em cidades.

 A situação na África do Sul é um excelente exemplo de como o conceito de níveis de desenvolvimento (cada um com sua própria visão-de-mundo, valores e necessidades) pode realmente reduzir, e mesmo suavizar, tensões sociais, e não exacerbá-las. A Espiral do Desenvolvimento vê o desenvolvimento humano segundo oito níveis de consciência ou estruturas profundas: instintivo (urobórico), animista/tribal (tifônico-mágico), deuses de poder (mágico-mítico), absolutista/religioso (mítico), individualista/conquistador (racional-egóico), relativista (visão-lógica inferior), sistemático/integrativo (visão-lógica média) e global/holístico (visão-lógica superior). Não são níveis rígidos, mas ondas fluidas que se sobrepõem e se interconectam, resultando numa teia ou espiral dinâmica do desdobramento da consciência.

 A abordagem liberal típica para dissolver tensões sociais é tratar igualmente todos os valores e depois tentar forçar um nivelamento ou redistribuição de recursos (dinheiro, direitos, mercadorias, terras), ao mesmo tempo em que deixa os valores intocados. A abordagem conservadora típica é considerar seus valores particulares e tentar impingi-los a todo mundo. A abordagem desenvolvimentista é reconhecer que há muitos valores e visões-de-mundo diferentes; que uns são mais complexos que outros; que muitos problemas de um estágio de desenvolvimento só podem ser minorados pela evolução para um nível mais elevado; e que somente reconhecendo e facilitando essa evolução poderá alcançar-se, finalmente, a justiça social. Mais ainda, reconhecendo que todas as pessoas possuem todos esses níveis potencialmente disponíveis, as linhas de tensão social são redesenhadas: não em termos de cor da pele, classe econômica ou ideologia política, mas sim no tipo de visão-de-mundo no qual a pessoa, grupo de pessoas, clã, tribo, negócio, governo, sistema educacional ou nação está operando. Como ressaltado por Beck, “o foco não é em tipos de pessoas, mas em tipos nas pessoas”. Isto tira a cor da pele do jogo e focaliza alguns dos verdadeiros fatores subjacentes (valores e visões-de-mundo) que geram as tensões sociais; foi exatamente essa abordagem que ajudou a desmantelar o apartheid na África do Sul.


 Beck e Cowan usam vários nomes e cores para se referir a esses diferentes oito níveis do ser. Mas estes não são simplesmente fases que passam, no desdobramento do self; são capacidades e estratégias de atuação permanentemente disponíveis que, uma vez emersas, são ativadas conforme as condições de vida apropriadas (e.g. instintos de sobrevivência podem ser ativados em situações de perigo; capacidades de ligação são ativadas em relacionamentos humanos íntimos, e assim por diante).

 Os seis primeiros níveis são “níveis de subsistência” marcados pelo “pensamento de primeira-camada”. A partir daí, ocorre uma guinada revolucionária na consciência: a emergência dos “níveis do ser” e do “pensamento de segunda-camada”. A seguir, uma breve descrição das oito ondas, a percentagem da população mundial em cada onda e a percentagem de poder social que cada uma detém.

Níveis de Subsistência (Pensamento de Primeira-camada)

1. Bege: Arcaico-Instintivo

Nível básico de sobrevivência; alimento, água, aquecimento, sexo e segurança são prioritários. Usa hábitos e instintos apenas para sobreviver. A individualidade está no início do despertar e quase não se sustenta. Reúne-se em bandos de sobrevivência para perpetuar a vida.

Onde é encontrado: primeiras sociedades humanas, recém-nascidos, pessoas senis, pessoas em estágio avançado do mal de Alzheimer, moradores de rua mentalmente doentes, massas famintas, pessoas com traumas de guerra.

0,1% da população mundial adulta. 0% de poder.

2. Roxo: Mágico-Animista

O pensamento é animista; espíritos mágicos, bons e maus, fervilham pela Terra trazendo bênçãos, maldições e encantamentos que determinam os acontecimentos. Reúne-se em tribos étnicas. Os espíritos existem nos antepassados e aglutinam a tribo. Parentesco e linhagem estabelecem os vínculos políticos. Aparenta ser “holístico” mas na verdade é atomístico: “Há um nome para cada curva do rio mas nenhum nome para o rio.”

Onde é encontrado: crença em maldições do tipo vodu, juramentos de sangue, ressentimentos antigos, feitiços de boa-sorte, rituais de família, superstições e crenças étnicas mágicas. Forte em comunidades do terceiro-mundo, gangues, equipes esportivas e “tribos” corporativas.

10% da população mundial. 1% de poder.

3. Vermelho: Deuses de Poder

Primeira emergência do self distinto da tribo; poderoso, impulsivo, egocêntrico, heróico. Espíritos mágico-míticos, dragões, feras e gente poderosa. Deuses e deusas arquetípicos, seres poderosos, forças com que se pode contar, tanto boas quanto más. Senhores feudais protegem os servos em troca de obediência e trabalho. A base dos impérios feudais – poder e glória. O mundo é uma selva cheia de ameaças e de predadores. Conquista, engana e domina; aproveita ao máximo, sem desculpa ou remorso.

Onde é encontrado: “Terrible twos”, juventude rebelde, mentalidades de fronteira, reinos feudais, heróis épicos, vilões de James Bond, líderes de gangues, soldados mercenários, narcisismo new-age, astros de rock pesado, Átila o Huno, “Lord of the Flies”.

20% da população mundial. 5% de poder.

4. Azul: Regra Conformista

A vida tem significado, direção e propósito, com eventos determinados por um todo-poderoso Outro ou Ordem. Esta Ordem justa impõe um código de conduta baseado em princípios absolutos e invariáveis de “certo” e “errado”. A violação do código ou das regras apresenta severas, e talvez permanentes, repercussões. A obediência ao código gera recompensas para os fiéis. Base das nações antigas. Hierarquias sociais rígidas; paternalista; um, e apenas um, modo correto de pensar sobre tudo. Lei e ordem; impulsividade controlada através da culpa; crença concreto-literal e fundamentalista; obediência à regra da Ordem. Freqüentemente, a Ordem ou Missão é “religiosa” [no sentido da associação-mítica; Graves e Beck referem-se a isto como o nível “santo/absolutista”], mas pode ser secular ou atéia.

Onde é encontrado: América Puritana, China Confucionista, Inglaterra Dickensiana, disciplina de Singapura, códigos de cavalheirismo e de honra, boas-ações caridosas, Fundamentalismo Islâmico, Escoteiros e Bandeirantes, “maioria moralista”, patriotismo.

40% da população mundial. 30% de poder.

5. Laranja: Realização Científica

Neste nível, o self “liberta-se” da “mentalidade de rebanho” do nível azul e procura a verdade e o significado em termos individualistas – hipotético-dedutivos, experimentais, objetivos, mecanicistas, operacionais – “científicos” no sentido típico. O mundo é uma máquina racional bem lubrificada com leis naturais que podem ser aprendidas, controladas e manipuladas visando a interesses próprios. Altamente orientado para a conquista de objetivos; na América, especialmente para ganhos materiais. As leis da ciência regulam a política, a economia e os acontecimentos humanos. O mundo é um tabuleiro de xadrez onde partidas são jogadas e os vencedores conquistam superioridade e privilégios em detrimento dos perdedores. Alianças de mercado; manipulação dos recursos naturais visando a ganhos estratégicos. Base dos estados corporativos.

Onde é encontrado: O Iluminismo, Atlas Shrugged de Ayn Rand, Wall Street, a Riviera, classe média emergente em todo o mundo, indústria de cosméticos, caça de troféus, colonialismo, a Guerra Fria, indústria da moda, materialismo, auto-interesse liberal.

30% da população mundial. 50% de poder.

6. Verde: O Self Sensível

Comunitário, vínculo humano, sensibilidade ecológica, operação em rede. O espírito humano deve livrar-se da ganância, dos dogmas, das divergências; sentimentos e cuidados substituem a fria racionalidade; acalentar a Terra, Gaia, a vida. Contra hierarquias; estabelece ligações laterais. Self permeável, self relacional, interrelacionamento de grupos. Ênfase no diálogo e nos relacionamentos. Base das comunidades coletivas (isto é, afiliações, baseadas em sentimentos comuns, escolhidas livremente). Decide através da reconciliação e do consenso (lado negativo: “processamento” interminável e incapacidade de chegar a decisões). Renova a espiritualidade, cria harmonia, enriquece o potencial humano. Fortemente igualitário, anti-hierárquico, valores pluralistas, construção social da realidade, diversidade, multiculturalismo, sistemas relativos de valores; esta visão-de-mundo é freqüentemente denominada de relativismo pluralista. Pensamento subjetivo, não-linear; mostra um alto grau de calor humano, sensibilidade e cuidado pela Terra e por todos os seus habitantes.

Onde é encontrado: ecologia profunda, pós-modernismo, idealismo holandês, aconselhamento rogeriano, sistema de saúde canadense, psicologia humanística, teologia da libertação, Conselho Mundial de Igrejas, Greenpeace, direitos dos animais, ecofeminismo, pós-colonialismo, Foucault/Derrida, o politicamente correto, movimentos de diversidade, assuntos de direitos humanos, ecopsicologia.

10% da população mundial. 15% de poder.

Níveis do Ser (Pensamento de Segunda-camada)

7. Amarelo: Integrativo

A vida é um caleidoscópio de hierarquias naturais (holarquias), sistemas e formas. Flexibilidade, espontaneidade e funcionalidade têm a máxima prioridade. Diferenças e pluralidades podem ser integradas em fluxos naturais interdependentes. Igualdade é complementada por graus naturais de excelência, onde apropriado. Conhecimento e competência devem substituir posição, poder, status ou grupo. A ordem mundial prevalecente é resultado de diferentes níveis de realidade e dos inevitáveis padrões de movimento para cima e para baixo na espiral do desenvolvimento. Boa autoridade facilita a emergência de entidades através dos níveis de crescente complexidade (hierarquia nidiforme).

8. Turquesa: Holístico

Sistema holístico universal, hólons/ondas de energias integrativas; une sentimento e conhecimento [centauro]; múltiplos níveis interconectados num sistema consciente. Ordem universal, mas num modo vivo e consciente, não baseado em regras externas (azul) ou ligações de grupo (verde). É possível uma “grande unificação” em teoria e na prática. Algumas vezes envolve a emergência de uma nova espiritualidade como uma teia de toda a existência. O pensamento turquesa usa a espiral completa; vê múltiplos níveis de interação; detecta harmônicos, as forças místicas e os estados de fluxos que permeiam todas as organizações. … A diretriz fundamental é a saúde da espiral completa e não o tratamento preferencial para algum nível específico.

 Pensamento de segunda-camada: 1% da população mundial. 5% de poder. Onde é encontrado: com apenas 1% da população no pensamento de segunda-camada (e somente 0,1% no nível turquesa), a consciência de segunda-camada é relativamente rara, sendo, atualmente, a “ponta de lança” da evolução coletiva da humanidade. Como exemplos, Beck e Cowan mencionam itens como a noosfera de Teilhard de Chardin e o crescimento da psicologia transpessoal, com aumentos na freqüência definitivamente a caminho – e mesmo níveis mais elevados em futuro próximo…

 Tradução de Ari Raynsford

Excertos do livro Psicologia Integral de Ken Wilber
Editora Cultrix 

 

 

Quem é você

O testemunhar da consciência pode continuar através da vigília, do sonho e do sono profundo. A Testemunha está completamente disponível em qualquer estado, incluindo o seu próprio estado presente de consciência agora mesmo. Assim eu vou induzi-lo a este estado, ou tentar, usando o que é conhecido no Budismo como “pointing out instructions”. Eu não vou tentar fazê-lo entrar em um estado diferente de consciência, ou um estado alterado de consciência, ou um estado não-ordinário. Eu vou simplesmente mostrar algo que já está acontecendo em seu próprio presente, ordinário, estado natural.

 Então vamos começar apenas ficando atentos ao mundo ao nosso redor. Olhe o céu lá fora, e simplesmente relaxe sua mente; deixe sua mente e o céu se misturarem. Note as nuvens que flutuam. Note que isto não necessita nenhum esforço da sua parte. Sua consciência presente, na qual estas nuvens estão flutuando, é muito simples, muito fácil, sem esforço, espontânea. Você simplesmente percebe que há uma consciência sem esforço das nuvens. O mesmo é verdade com essas árvores, esses pássaros, e essas pedras. Você simplesmente os testemunha, sem esforço.

 Olhe agora as sensações em seu próprio corpo. Você pode estar completamente atento a qualquer sensação corporal presente — talvez pressão onde você está sentado, talvez calor em sua barriga, talvez tensão em seu pescoço. Mas até mesmo se estas sensações são fortes e rígidas, você pode estar facilmente atento delas. Estas sensações surgem em sua consciência presente, e essa consciência é muito simples, fácil, sem esforço, espontânea. Você simplesmente os testemunha, sem esforço.

 Olhe para os pensamentos que surgem em sua mente. Você pode notar várias imagens, símbolos, conceitos, desejos, esperanças e medos, tudo isso surgindo espontaneamente em sua consciência. Eles surgem, ficam um pouco, e passam. Estes pensamentos e sentimentos surgem em sua consciência presente, e essa consciência é muito simples, sem esforço, espontânea. Você simplesmente os testemunha, sem esforço.

 Assim, perceba: você pode ver as nuvens passarem porque você não é essas nuvens — você é a testemunha dessas nuvens. Você pode vivenciar as sensações porque você não é essas sensações — você é a testemunha dessas sensações. Você pode ver os pensamentos flutuarem porque você não é esses pensamentos — você é a testemunha desses pensamentos. Espontaneamente e naturalmente, todas essas coisas surgem, por elas mesmas, em sua presente, não-forçada, consciência.

 Então quem é você? Você não é os objetos lá fora, você não é os sentimentos, você não é os pensamentos — você está facilmente atento a tudo isso, portanto você não é isso. Quem ou o que é você? Diga deste modo a você: Eu tenho sentimentos, mas eu não sou esses sentimentos. Quem sou eu? Eu tenho pensamentos, mas eu não sou esses pensamentos. Quem sou eu? Eu tenho desejos, mas eu não sou esses desejos. Quem sou eu? Assim você se empurra na direção da fonte de sua própria consciência. Você se volta para a Testemunha, e você descansa na Testemunha. Eu não sou objetos, não sou sentimentos, não sou desejos, não sou pensamentos.

 Entretanto as pessoas normalmente cometem um grande engano. Elas pensam que se elas descansarem na Testemunha, elas vão ver algo ou sentir algo — algo realmente maravilhoso e especial. Mas você não verá nada. Se você vir algo, isso é apenas outro objeto — outro sentimento, outro pensamento, outra sensação, outra imagem. Mas esses são todos objetos; eles são o que você não é.

 Não, enquanto você descansa na Testemunha — percebendo, eu não sou objetos, eu não sou sentimentos, eu não sou pensamentos — tudo o que você notará será uma sensação de liberdade, uma sensação de libertação, uma sensação de liberação — liberação da terrível constrição de se identificar com estes fracos e pequenos objetos finitos, seu pequeno corpo, pequena mente e pequeno ego, tudo isso são objetos que podem ser vistos e assim não são o verdadeiro Vidente, o verdadeiro Eu, a pura Testemunha, que é o que você realmente é.

 Desse modo você não verá nada em particular. Tudo o que está surgindo está bem. Nuvens flutuam no céu, sentimentos flutuam pelo corpo, pensamentos flutuam pela mente — e você pode testemunhar todos eles sem esforço. Eles todos surgem espontaneamente em sua própria consciência (presente, fácil, sem esforço). E esta consciência que testemunha não é qualquer coisa específica que você pode ver. É somente uma vasta sensação de liberdade — ou pura vacuidade — e naquela pura vacuidade, que é você, surge o mundo manifesto inteiro. Você é essa liberdade, abertura, vacuidade — e não todas as pequeninas coisas que nela surgem.

 Descansando nesse testemunhar vazio, livre, fácil e sem esforço, perceba que as nuvens estão surgindo no espaço vasto de sua consciência. As nuvens estão surgindo dentro você — tanto que você pode provar as nuvens, você é um com as nuvens. É como se elas estivessem neste lado de sua pele, elas são tão íntimas. O céu e sua própria consciência se tornaram um, e todas as coisas no céu estão flutuando sem esforço por sua própria consciência. Você pode beijar o sol, engolir a montanha, eles são suficientemente próximos. O Zen diz “Engula o Oceano Pacífico em um único gole”, e isso é a coisa mais fácil do mundo, quando dentro e fora não mais são dois, quando sujeito e objeto são não-duais, quando o vedor e o visto são “One Taste (Um único sabor)“. Você percebe?

 © 1999 Ken Wilber

 Fonte: http://www.integralworld.net/pt/WhoAreYou_pt.html