Quatro significados da palavra espiritual

Se analisarmos o modo como as pessoas usam a palavra ‘espiritual’ – tanto os estudiosos quanto os leigos – encontraremos no mínimo, quatro significados principais atribuídos a ela. Ainda que os indivíduos não usem esses termos técnicos, é evidente que a palavra ‘espiritual’ é usada para se referir: (1) aos níveis mais elevados em qualquer uma das linhas [de desenvolvimento]; (2) a uma linha [de desenvolvimento] isolada; (3) a um estado [de consciência] ou experiência de ‘pico’ extraordinária; (4) a uma determinada atitude. Para mim, todos esses usos são legítimos (e penso que todos apontam para realidades verdadeiras), mas nós PRECISAMOS identificar a quais desses usos estamos nos referindo, ou a conversa não fluirá, com o ônus adicional de que corremos o risco de achar que houve progresso de verdade. Em toda minha vida, nunca ouvi mais gente pronunciar tantas palavras com tão pouco significado.

Ken Wilber – livro “Espiritualidade Integral”

Onde o espírito está localizado

Isto é uma simples experiência com o pensamento. Imagine as seguintes pessoas e diga qual delas você acha mais espiritual?

  1. Um homem num terno Armani
  2. Uma mulher dirigindo uma Ferrari
  3. Um campeão de basebol num torneio importante
  4. Um comediante profissional
  5. Um matemático
  6. Uma pessoa fazendo levantamento de peso
  7. Um nadador olímpico
  8. Um professor universitário
  9. Uma modelo
  10. Uma parceira sexual de aluguel (sexual surrogate)*

Qual destes você considera mais espiritual? Qual é o menos espiritual?

É engraçado, não é; as coisas que a gente acha que não são espirituais? Por que achamos que a maioria dessas pessoas não é espiritual? Por que imaginamos a maioria desses homens e mulheres como não sendo muito espiritualizados?

Ou, ao contrário, por que é tão difícil para nós vê-los como seres espirituais? Não estaríamos apenas sendo preconceituosos sobre onde o Espírito deve ou não deve ser encontrado?

Ou, o que é pior: não estaríamos confirmando o quão ultrapassadas e fragmentadas são as nossas idéias sobre o Espírito? Confirmando o quanto somos NÃO INTEGRADOS?

Por que contar piada não é algo espiritual?

Por que algo bonito – um carro, um terno – não pode ser espiritual?

Por que excelência física não é espiritual? Por que sexo não é espiritual?

Por quê?

Vivemos um novo mundo, uma nova espiritualidade, um novo tempo, um novo homem, uma nova mulher. Todas as categorias acima são profundamente espirituais. A maior parte desta lista são coisas e situações às quais temos medo de permitir que sejam tocadas pela espiritualidade.

Morto do pescoço para baixo, sem humor, sem nenhuma sensibilidade estética, passando os dias e as noites ignorando o mundo e se dedicando apenas à oração… que Deus estranho, este!

Bem, não é mais assim.

Morto para a vida, morto para o corpo, morto para a natureza, morto para o sexo, morto para a beleza, morto para a excelência: este nunca foi o Deus verdadeiro, mas meramente uma destilação de coisas que homens e mulheres sempre tiveram dificuldade em lidar e para as quais Deus se tornou uma Grande Fuga, uma válvula de escape para todo impulso fóbico e repulsivo que os seres humanos possuíam. Agora isso não é mais necessário.

É um novo mundo, uma nova espiritualidade, um novo homem, uma nova mulher.

O espírito é integral, e o ser humano também.

Copyright 2005 Ken Wilber

*Sexual surrogate – Uma modalidade terapeutica para homens solteiros, comum nos Estados Unidos, parte do instrumental de terapeutas sexuais, legalmente amparada pela “American Association of Sex Educators, Counselors, and Therapists” (1978)

Translated by: Loi Knoedt
http://www.integralworld.net/pt.html

Estágios da meditação

Neste ensaio, originalmente incluído nas Obras Completas de Ken Wilber: Volume IV, Ken oferece uma descrição aprofundada de cada uma dos principais estados/estágios da prática meditativa – indo da absorção psíquica, à iluminação subtil, à transcendência causal, ao abraço final não-dual de Forma e Vazio.

Q: Gostaríamos que você descrevesse as experiências dos vários estágios da meditação. Mas, primeiro, fale-nos sobre a meditação em si, os diferentes tipos e como eles funcionam.

R: É comum entre os estudiosos dividir a prática da meditação em duas grandes categorias: ‘concentração’ e ‘consciência’ (ou ‘insight’). Ou, meditação ‘aberta’ e ‘fechada’. Por exemplo, digamos que você está olhando para uma parede que tem centenas de pontos pintados sobre ela. Na meditação de concentração, você olha apenas para um ponto e você olha para ele tão “ferozmente”, que nem precisa ver os outros pontos. Esta prática desenvolve os seus poderes de concentração. Na meditação na consciência, ou de insight, você tenta estar o mais consciente possível de todos os pontos, o quanto você puder. Desse modo, isso aumenta a sua sensibilidade, consciência e sabedoria.

Na meditação de concentração, você coloca sua atenção em um objeto, por exemplo, uma pedra, a chama de uma vela, sua respiração, um mantra, uma oração principal, e assim por diante. Por que você fica intensamente concentrado em um único objeto, você como sujeito, torna-se progressivamente ‘identificado’ com esse objeto. Você começa a minar o dualismo sujeito / objeto, que é a base de todo o sofrimento e ilusão. Gradualmente, você é levado aos reinos mais elevados de existência, então a dimensão última ou nãodual tornar-se óbvia para você. Você transcende o seu self ou ego comum e encontra as dimensões mais elevadas e mais sutis de existência – a espiritual e transcendental.

No entanto, isto é atingir as dimensões superiores através de ‘força bruta’, por assim dizer. E embora a meditação de concentração seja considerada muito importante, por si só, em princípio, ela não remove as nossas tendências para criar o dualismo. Na verdade, ela simplesmente os ignora, ela tenta contorná-los. Ela se concentra em um ponto e ignora todos os outros. A meditação da concentração pode, definitivamente, nos mostrar alguns dos reinos mais elevados, mas não pode nos manter permanentemente naqueles reinos mais elevados. Para isso, você tem que olhar para todos os pontos. Você tem que investigar toda a experiência, com imparcialidade, não julgamento, equanimidade e consciência cristalina.

P: Isso é insight ou meditação na consciência.

R: Sim, isso mesmo. A chamada meditação budistas na concentração é Shamatha e a meditação na consciência, Vipassana, ou Dhyana e Prajna. A primeira leva ao samadhi, ou uma concentração elevada, a segunda para o satori, ou a consciência transcendental e sabedoria.

O ponto sobre qualquer uma dessas práticas de meditação – e há outras, como visualização, koans, a oração contemplativa, e assim por diante – o ponto é que todas elas estão realmente fazendo duas coisas importantes. Primeiro, elas estão ajudando a aquietar a mente discursiva, a mente racional-existencial, a mente que tem que pensar o tempo todo, a mente que tem que tagarelar consigo mesma o tempo todo e verbalizar tudo. Elas nos ajudam a acalmar a ‘mente macaco’. E uma vez que a mente macaco se aquiete um pouco, permite que as dimensões mais sutis e mais elevadas da consciência emerjam, tais como o psíquico, o sutil, o causal e o estado final ou não dual. Essa é a essência da meditação genuína. É simplesmente uma maneira de continuar a evolução, para continuar o nosso crescimento e desenvolvimento.

O NÍVEL PSÍQUICO

Q: Você poderia descrever os níveis de meditação e como eles são experienciados? O que realmente acontece em cada estágio?

R: Quando você pratica meditação, uma das primeiras coisas que você percebe é que sua mente – aliás, a sua vida – está dominada em grande parte por uma tagarelice verbal subconsciente. Você está sempre falando para si mesmo. E assim, quando as pessoas começam a meditar, muitas ficam surpresas com a quantidade de lixo que começa a aparecer através de sua consciência. Elas encontram pensamentos, imagens, fantasias, noções, idéias, conceitos, que praticamente dominam a sua consciência. Elas percebem que estes padrões mentais têm uma influência muito mais profunda sobre suas vidas do que jamais pensaram.

Em qualquer caso, as experiências iniciais de meditação são como estar no cinema. Você se senta e assisti a todas essas fantasias e conceitos desfilando, na frente de sua consciência. Mas a questão toda é que você está finalmente se tornando consciente deles. Você está olhando para eles de forma imparcial e sem julgamento. Você só os vê passar, assim como você vê as nuvens que flutuam no céu. Elas vêm, elas vão. Nenhum elogio, nenhuma condenação, nenhum julgamento – apenas permanece testemunhando. Se você julgar seus pensamentos, você se apega a eles, então você não pode transcendê-los. Você não pode encontrar as dimensões mais altas ou mais sutil de seu próprio ser. Então você se senta em meditação, e você simplesmente ‘testemunha’ o que está acontecendo em sua mente. Você deixa a mente macaco fazer o que quer, e você simplesmente assisti.

E o que acontece é, porque você imparcialmente testemunha esses pensamentos, fantasias, noções e imagens, você começa a tornar-se livre de sua influência inconsciente. Você está olhando para eles, então você não os está usando para olhar o mundo. Portanto se torna, em certa medida, livre deles. E você fica livre da noção do eu separado que dependia deles. Em outras palavras, você começa a se tornar livre do ego. Esta é a dimensão espiritual inicial, onde o ego convencional ‘morre’ e as estruturas mais elevadas de consciência são ‘ressuscitadas’. Seu senso de identidade, naturalmente, começa a se expandir e abraçar o Kosmos, ou toda a natureza. Você se eleva acima da mente e do corpo isolados, e pode encontrar uma maior identidade, com a natureza ou Kosmos – ‘consciência cósmica’, como R.M. Bucke a chamou. É uma experiência muito concreta e inequívoca.

E, eu não preciso lhe dizer que isto é um alívio extraordinário! Este é o início de transcendência, de encontrar o seu caminho de volta para casa. Você percebe que você é ‘um’ com o tecido do universo, eternamente. O medo da morte começa a diminuir, e você realmente começar a sentir, de forma concreta e palpável, a natureza aberta e transparente do seu próprio ser.

Sentimentos de gratidão e devoção surgirão em você – devoção ao Espírito, na forma do Cristo, ou Buda, ou Krishna, ou devoção a seu mestre espiritual real, até mesmo devoção em geral, e, certamente, a devoção a todos os outros seres sencientes. O voto do bodhisattva, sob qualquer forma, surge das profundezas do seu ser, de uma maneira muito poderosa. Você percebe que você simplesmente tem que fazer o que puder para ajudar todos os seres sencientes, e pela razão, como disse Schopenhauer, você percebe que todos nós compartilhamos o mesmo Ser nãodual ou Espírito ou Absoluto. Tudo isso começa a se tornar óbvio, tão óbvio como a chuva no telhado. É real e é concreto.

O NÍVEL SUTIL

Q: Então o que acontece com o próximo estágio geral, o nível sutil?

R: Como a sua identidade começa a transcender o corpo-mente isolado e individual, você começa a intuir que há um “Solo do Ser” ou Divindade genuína, além do ego, e para além dos apelos às figuras míticas de deus, para além do cientificismo racionalista ou bravura existencial. Esta Deidade pode realmente ser intuída. Quanto mais você se desenvolve para além do corpo-mente existencial e isolado, mais você se desenvolve em direção ao Espírito, que, no nível sutil, muitas vezes é experenciado como Deidade Forma ou Self Arquetípico. Por isso, quero dizer, por exemplo, clareza muito concreta e brilhante de consciência.

O ponto é que você está vendo alguma coisa além da natureza, além do existencial, além do psíquico, além até mesmo da identidade cósmica. Você está começando a ver a dimensão oculta ou esotérica, a dimensão fora do cosmos ordinário, a dimensão que transcende a natureza. Você vê a Luz, e, às vezes, essa Luz literalmente brilha como a luz de mil sóis. Você é tomado por ela, lhe dá poderes, energiza, refaz e o preenche. Isto é o que estudiosos chamaram de natureza ‘numinosa’ do espírito sutil. Numinosa e luminosa. Isto é, creio eu, porque os santos são universalmente representados com halos de luz ao redor de suas cabeças. Isso é realmente o que eles veem. Luz Divina.

Minha leitura favorita de Dante:

Fixando o meu olhar sobre a Luz Eterna
Eu vi dentro de suas profundezas,
Ligado com amor em um só volume,
As folhas dispersas de todo o universo.
Dentro da profunda subsistência luminosa
Daquela Luz Exaltada eu vi três círculos,
De três cores ainda de uma dimensão,
E pelo segundo parecia o primeiro refletido,
Como arco-íris é pelo arco-íris, e o terceiro
Parecia fogo, que igualmente de ambos era respirado.

Isso não é mera poesia. Essa é uma descrição quase matemática de um tipo de experiência do nível sutil. De qualquer forma, você também pode experimentar este nível como uma descoberta do seu próprio Eu Superior, da sua alma, ou Espírito Santo. ‘Aquele que conhece a si mesmo conhece a Deus’, disse Saint Clement.

Q: E a experiência propriamente dita?

R: A experiência real varia. Aqui está um exemplo: Digamos que você está andando no centro, olhando as vitrines. Você está olhando para uma parte da mercadoria, e de repente você vê uma imagem vaga ‘dançando’ na frente de seus olhos, a imagem de uma pessoa. Então, imediatamente você percebe que essa imagem é seu próprio reflexo na vitrine. Você de repente se reconhece. Você reconhece o seu Eu, seu Eu Superior. Você de repente reconhece quem você é. E quem você é – uma centelha luminosa do Divino. Mas você tem esse choque de reconhecimento – ‘Oh, isso!’

É uma realização muito concreta, e geralmente traz muitos risos ou muitas lágrimas. A Divindade Forma sutil ou Luz ou Eu Superior – são todos apenas arquétipos de seu próprio Ser. Você está encontrando, através do desenvolvimento meditativo, e começando um encontro direto com o Espírito, com a sua própria essência. Assim, ele mostra-se como luz, como um ser de luz, como nada, comoshabd, como clareza, numinosidade, e assim por diante. E às vezes ele só se mostra como uma consciência simples e clara do que é – muito simples, muito clara. O ponto é que ela (essa consciência) está ciente de todos os “pontos na parede”. É a clara consciência do que está acontecendo momento a momento, e, portanto, transcende o momento. Transcende esse mundo e começa a participar do Divino. Tem visão sagrada, no entanto, pode ser expressa. Isso é o sutil – uma introdução face a face com o Divino. Você realmente participa da Divindade, e na consciência e sabedoria da Divindade. É uma prática. Ela pode ser feita. Foi feita, muitas vezes.

O NÍVEL CAUSAL

Q: Isso é muito claro. Assim, o que acontece no próximo nível, o causal?

A: Você está sentado lá, só assistindo tudo o que surge na mente, ou em sua experiência presente. Você está tentando testemunhar, igualmente, todos os pontos na parede de sua consciência. Se você se tornar proficiente nisto, eventualmente todos os pontos racionais e existenciais desaparecem, e os pontos psíquicos começam a entrar em foco. Então, depois de um tempo, você obtém uma melhor testemunha, e os objetos muito sutis ou pontos começam a aparecer. Esses incluem luzes e iluminações audíveis e formas sutis da Deidade e assim por diante. Se você continuar simplesmente testemunhando – o que lhe ajudará a se desindentificar das formas inferiores e densas, e a tomar consciência das formas mais elevadas e sutis de objetos – até mesmo objetos sutis ou pontos sutis deixam de surgir. Você entra em um estado profundo de não-manifestação, que é experimentado como, digamos, uma noite de outono com uma lua cheia. Há uma numinosidade estranha e bonita para tudo, mas é uma numinosidade ‘silenciosa’ ou ‘escura’. Você realmente não pode ver nada, exceto uma espécie de plenitude prateada, preenchendo todo o espaço. Mas porque você não está realmente vendo nenhum objeto específico, é também um tipo de Vazio Radical. Como o Zen diz, ‘interrompe o som da corrente do riacho’. Isso é também conhecido como shunyata, como a Nuvem do Desconhecimento, Divina Ignorância, Mistério Radical, nirguna (‘inqualificável’), Brahman, e assim por diante. Sem forma brilhante, sem objetos distrativos.

Torna-se óbvio que você é absolutamente ‘um’ com esta Plenitude, que transcende todos os mundos, todos os planos, todo o tempo e toda a história. Está perfeitamente pleno, e, portanto, você é perfeitamente vazio. ‘São todas as coisas e nenhuma coisa’, disse o místico cristão Boécio. Espanto dá lugar à certeza. Isso é quem você é, antes de toda a manifestação, antes de todos os mundos. Em outras palavras, é ver quem ou o que você é, atemporal e sem forma.

Esse é um exemplo do nível causal, isto é jnana samadhi, nirvikalpa samadhi, e assim por diante. A alma, ou senso de self separado, desaparece e Deus ou a Divindade Forma separada desaparece, porque ambos – a alma e Deus – colapsaram na Divindade sem forma. Tanto a alma como Deus desaparecem na Identidade Suprema.

O NÍVEL NÃO-DUAL

Q: Então sobra o nível não-dual.

A: No nível anterior causal, você está tão absorvido na dimensão imanifesta que você pode até não notar o mundo manifesto. Você está descobrindo o Vazio, e assim você ignora a Forma. Mas, no nível derradeiro ou não-dual, você passa a integrar os dois. Você vê que o Vazio aparece ou se manifesta como Forma, e que a forma tem em sua essência o Vazio. Em termos mais concretos, o que você é são todas as coisas que surgem. Toda manifestação surge, momento a momento, como um jogo do Vazio. Se o nível causal era uma noite de luar radiante, este é como um dia de outono radiante.

Aquilo que aparece como objetos rígidos ou sólidos ‘lá fora’ são manifestações realmente transparentes e translúcidas de seu próprio Ser ou Estado de Ser. Eles não são obstáculos para Deus, apenas expressões de Deus. Eles são, portanto, vazios no sentido de não ser uma e de obstrução ou impedimento. Eles são uma expressão livre do Divino. Como a tradição Mahamudra sucintamente coloca, ‘Tudo é Mente. Mente é vazio. Vazio é livre manifestação. A livre manifestação é auto-liberadora. ‘

A liberdade que você encontrou no nível causal – da liberdade de Plenitude e Vazio – esta liberdade encontrada se estende a todas as coisas, mesmo a este mundo ‘caído’ do pecado e da samsara. Portanto, todas as coisas tornam auto-liberadas. E essa extraordinária liberdade, ou ausência de restrição, ou total liberação – neste claro e brilhante dia de outono – é isso que você realmente sente neste momento. Mas, então, ‘experiencia’ é a palavra totalmente errada. Essa realização é, na verdade, da natureza não-experiencial do Espírito. Experiências vêm e vão. Todas elas têm um começo e um fim no tempo. Mesmo experiências sutis vêm e vão. Eles são todas maravilhosas, gloriosas, extraordinárias. E eles vêm e vão.

Mas este ‘estado’ não-dual não é em si outra experiência. É simplesmente a abertura ou o espaço aberto na qual todas as experiências surgem e desaparecem. É o céu de outono brilhante, através do qual as nuvens vêm e vão – não é em si outra nuvem, outra experiência, outro objeto, outra manifestação. Essa realização é, de fato, de total ausência total de experiência, de absoluta ineficácia ao tentar experimentar liberação ou libertação. Todas as experiências perdem o sabor inteiramente – são nuvens passageiras.

Você não é aquele que experimenta a libertação, você é a clareza, a abertura, o vazio, em que qualquer experiência vai e vem, como reflexos no espelho. E você é o espelho, o espelho da mente, e não qualquer experiência refletida. Mas você não está separado dos reflexos, de pé e assistindo. Você é tudo que está surgindo momento a momento. Você pode engolir todo o Kosmos em um só gole, ele é tão pequeno e você pode saborear todo o céu sem mover uma polegada.

É por isso que, no Zen, diz-se que você não pode entrar no Grande Samadhi: isso é, na verdade, a abertura ou clareza que está sempre presente, e no qual toda experiência – e toda manifestação –surge momento a momento. Parece que você ‘entra’ neste estado, e uma vez lá, você percebe que nunca houve um momento em que este estado não estivesse totalmente presente e plenamente reconhecido – ‘o portão sem portal’. E assim você compreende profundamente que você nunca entrou nesse estado; nem os Budas, do passado e do futuro, nunca entram nesse estado.

No Dzogchen, este é o reconhecimento da verdadeira natureza da mente. Todas as coisas, em todos os mundos, são auto-liberadas à medida que surgem. Todas as coisas são como a luz solar na água de um lago. Tudo brilha. É tudo vazio. É tudo luz. Tudo está pleno e tudo está realizado. E o mundo segue o seu caminho normal, e ninguém repara.

Postado em 8 de Novembro de 2011 by Ken Wilber in Integral Post
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